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     A Fonte Âmbar é o terceiro e último livro da trilogia de Athelgard, iniciada em O Castelo das Águias, por Ana Lúcia Merege - que rendeu, além dos três romances (cujas resenhas você pode ler aqui e aqui), inúmeros contos dentro do mesmo universo. 

     Este contém a premissa mais sombria e madura dos três: a iminência de uma guerra se torna uma realidade que muda a vida dos personagens. Kieran de Scyllix, famoso mago e Mestre de Magia da Forma e do Pensamento e sua esposa, a Mestra de Sagas Anna de Bryke precisam ir a Scyllix, a cidade militar de Athelgard, para lidar com o inimigo e intrigas políticas que podem deixar marcas na história tão profundas quanto esta em si. Enquanto Kieran está determinado a derrotar o mago que acompanha o exército inimigo, Anna encontra-se em uma luta política pela liberdade das águias douradas. Além disso, inúmeras outras intrigas políticas e questões passadas emergem, dando bastante trabalho para o casal de protagonistas.

O casal de protagonistas, Kieran e Anna // Fonte
Em essência, a premissa do livro já revela do que se trata: é um livro sobre guerra. Livros sobre guerra em literatura fantástica. Mais do mesmo, poderia pensar o leitor comum. O que surpreende, de uma forma agradável, neste livro, é que a guerra não é apresentada de forma desconexa, como um evento que acontece do dia para a noite. O livro começa com a tensão pré-guerra, que se estende até depois da metade, crescendo capítulo após capítulo: temos as suspeitas, a ameaça, os efeitos na sociedade de Athelgard e em seus personagens. Acompanhamos o medo e angústia dos personagens, e ficamos com o coração na mão e a garganta presa com o clima instaurado pela autora. Não apenas isso, a guerra em A Fonte Âmbar não é vista apenas como um conjunto de batalhas que terá efeito apenas naqueles envolvidos diretamente. Aqui, vemos como o conflito surte efeito em todos: desde o camponês, que terá de dar todo o seu produto como tributo e possivelmente enfrentar a pobreza extrema, aos comerciantes que perdem seus negócios e às águas contaminadas devido aos corpos que se acumulam, chegando a todos - pois a guerra cria o desespero na população, a fragilização social, a pobreza, a fome, a doença. Guerra não é apenas um punhado de espadas em um campo aberto - guerra é morte e desespero, que são retratados de forma realista e convincentes ao leitor.
 
     É interessante também que as informações estratégicas da guerra (como o exército inimigo está se movimentando, como as preparações para a guerra estão sendo feitas) são descritas de forma coesa e clara, deixando o leitor bem situado no contexto do livro. Igualmente, as informações sobre os outros livros que situam aqueles leitores que podem ter começado a ler a saga pelo último volume são dadas de forma que não nos cansam com longos parágrafos de introdução/lembranças de acontecimentos passados. Não é um texto que privilegie a descrição, seguindo aquele exemplo clássico de livros que dão parágrafos e parágrafos descrevendo um ambiente, para somente depois introduzir os personagens e a cena, deixando uma lacuna entre personagem e o próprio mundo apresentado. A narração tem seu papel, e ambas as características trabalham muito bem juntas. Tudo em A Fonte Âmbar soa natural e lógico. 

     O livro é dividido em 32 capítulos, mais o prólogo e epílogo, totalizando 34. Todos alternam entre os pontos de vista de Anna e Kieran, com alguns outros tendo personagens coadjuvantes complementando a narração. Isso pode soar uma bagunça a princípio, mas Ana Lúcia Merege não é uma escritora iniciante, e isso se mostra claro com a sua capacidade de deixar os pontos de vistas e, logo, os personagens, bem característicos, sem ficarmos com a sensação de termos a mesma forma de narrar para diversos personagens.
 
     Os personagens, por sinal, são muito bem estruturados. Nenhum possui uma existência que seja avulsa, aleatória. Todos tem um papel, maior ou menor, dentro da narrativa, além de serem introduzidos nas cenas ou diálogos constantemente, de forma clara e que deixe o leitor sem aquela necessidade de voltar algumas páginas para relembrar quem é quem (que é, na minha opinião, uma das piores coisas que pode acontecer. Um livro que não colabora com o próprio ritmo é algo que não perdoo). Dentre os personagens, os que mais me chamaram a atenção foram Seril, irmã de Kieran, que possui uma personalidade mais introspectiva, antissocial, mas que, por dentro, é super amável, além de ser forte e determinada. Outro que gostei muito foi Declan, típico guerreiro de Scyllix, que guarda um rancor enorme por Kieran (rancor esse que eu acredito que poderia render mais algumas páginas de história). Outros personagens de outros livros da trilogia retornam em A Fonte Âmbar, tais quais Doron, Vergena (minha favoritíssima), Kyara e até mesmo o vilão do primeiro livro, Hillias.

     Mas peraí, isso significa que ele é o vilão desse livro também? Que clichê! Pois não se iluda, A Fonte Âmbar é um livro que, à medida que a cabeça do leitor vai montando certos pré-conceitos, os desmente de forma surpreendente. Todas as vezes em que, durante a leitura, me peguei imaginando que algo iria acontecer, que determinado personagem iria fazer tal coisa, fui pego de surpresa pelo roteiro, que, além de manter uma constância e crescente em relação ao ritmo (a tensão da guerra que cresce a cada capítulo, por exemplo), tem a capacidade de prender o leitor com esses ganchos que, em qualquer texto, são essenciais, pois convidam o leitor a virar a página.

     Impossível não comentar, também, a produção caprichada da editora Draco. Não é de agora que acredito que a Draco ultrapassa inúmeras editoras "de renome" em suas edições: as ilustrações de capa, a diagramação, o papel, tudo é feito de forma extremamente bonita e resistente, fazendo desse livro um adorno que não vai facilmente amarelar na estante ou diante do uso. Uma edição realmente maravilhosa.

     A Fonte Âmbar, em resumo, traz ao leitor uma história de guerra que precisava ser ouvida: a guerra vista de todos os pontos de vistas. Sentimo-nos mais afetados por ela ao conhecermos seus bastidores e como os personagens a recebem. O desenrolar das cenas é delicioso, sem causar trancaços no meio da leitura ou pesar demais para o entendimento do leitor. É um livro cativante, que realmente trouxe um pouco de ar fresco dentre tantos que, ao lermos, insistem em ventanias confusas.
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