Cartas a um jovem poeta – R. M. Rilke, por Patrícia.

By | sábado, janeiro 14, 2012 2 comments
Minha edição, tradução de Paulo Rónai
 Um aspirante a poeta timidamente pede conselhos em uma carta ao poeta alemão Rainer Maria Rilke. Quando este o escreve de volta, não apenas o contempla com correspondência íntima e extraordinária que dura por anos – sem ambos nunca terem se visto pessoalmente – mas também deixa para mundo uma compilação de cartas capazes de, sutilmente – e de forma quase imperceptível no momento em que ocorre - mudar perspectivas intensamente. Você só percebe depois, de repente, que havia uma versão sua Antes de Cartas a um jovem poeta, e uma versão Depois.

 Como se estivesse interceptando correspondência alheia (e afinal de contas é exatamente isso que acontece) você tem nas suas mãos pensamentos e divagações sobre todos os tipos de coisas que podem interessar a todos os tipos de pessoas, muito mais do que apenas poetas e escritores aspirantes. O que é escrever? Por que se escreve? O que é a crítica? 

 Particularmente há toda uma ideia do que há por trás de intenções críticas e seus efeitos – não somente a crítica artística, mas a autocrítica com relação ao próprio passado, ou com relação ao medo do desconhecido.

Rilke dissertando sobre os efeitos das intenções críticas.

 Há muitas outras coisas que eu sequer poderia saber, uma vez que é um livro que funciona um pouco como um oráculo: Existe uma grande chance de você encontrar a resposta para muitas perguntas pessoais nessas cartas, tornando o ato de enumerar o que elas contêm praticamente impossível.


 “Não é apenas a preguiça" - ele diz "que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso; é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, frente ao qual não nos sentimos bastante fortes.” (...) “Estamos colocados no meio da vida como o elemento que mais nos convém(...) em consequência de uma adaptação milenar, tornamo-nos tão parecidos com ela que, graças a um feliz mimetismo, se permanecermos calados, quase não poderemos ser distinguidos de tudo que nos rodeia.


 A verdade é que eu seria verdadeiramente tola caso quisesse explicar Cartas a um jovem poeta. Tão logo já devia ter deixado de aviso; explicá-lo é impossível. O que eu posso dizer é que no momento em que o lê você vê suas percepções e paradigmas se modificando, tornando-se outra coisa.  Coisas melhores, mais fáceis de se viver com.

 Especialmente recomendo esse livro a quem por medo da crítica limita o seu trabalho ou o modifica, tornando-o não genuíno e inorgânico, bem como para aqueles que procuram do lado de fora algo que se deve saber interiormente. Sobre o ofício da escrita, e procurar respostas exteriormente, ele escreve:“Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem – usando a licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. (...) Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos cantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? (...) Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: Sou mesmo forçado a escrever? Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão.”

  Cartas a um jovem poeta
é um livro extraordinário, do tipo que você desejaria que fosse do tamanho de um livro de bolso para carregar com você o tempo todo. São cartas que poderiam muito bem terem sido escritas para você.
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2 comentários:

  1. "Especialmente recomendo esse livro a quem por medo da crítica limita o seu trabalho ou o modifica, tornando-o não genuíno e inorgânico, bem como para aqueles que procuram do lado de fora algo que se deve saber interiormente."

    E você sabe que isso serve especialmente para você, sempre se limitando quando sabes muito bem a mente criativa e observadora que reserva só para você. E acredite em mim... Eu não sempre fui aquele que ouvi tudo que pensa acerca das coisas da vida? Se uma coisa que eu sei é que você tem talento nisso aqui: Escrever sobre aquilo que conhece e desconhece, porque sua inteligência consegue descobrir mundos novos com uma facilidade assustadora.

    Como gosto de escrever, o livro parece super adequado pra mim! Vou ver se consigo o encontrar. Ótima indicação!

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  2. Obrigada Risoto!! Na verdade eu não tenho pretensões de escritor nem nada assim mas eu acho que são conselhos que você pode levar pra maioria das inclinações artisticas. Você pode facilmente adaptar a qualquer ofício artistico, ou simplesmente decidir ler as coisas que ele fala sobre n outros assuntos. Eu particularmente gostei da visão dele sobre como devemos lidar com críticas, eu tento aplicar ela na vida, eu não sei dizer se eu faço isso da melhor forma, mas eu tento.
    Eu quero mesmo que você leia, ler esse livro é realmente interceptar correio alheio de alguém muito interessante.

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