A Garota Chicklit - O que uma década fez no universo da literatura feminina, por Trinta.

By | domingo, março 04, 2012 Leave a Comment


Outono de 1996, Inglaterra. Uma solteirona de meia idade ganha espaço nas prateleiras de várias livrarias britânicas no que seria a proposta de “uma Elizabeth Bennet dos anos 90” em formato de diário. Pretensioso demais? É, talvez a capa não grite “revolucionário”. Porém, as confissões constrangedoras de Bridget Jones sobre sua luta contra a balança, a vida amorosa inexistente e as relações ariscas com os familiares atingiram a autoestima de inúmeras mulheres inglesas (e logo depois, do mundo inteiro) em um processo de identificação com o personagem tão espetacular que lhe concedeu o prêmio de British Book of the Year (“O livro do ano da Inglaterra”) dois anos depois de ser lançado. Helen Fielding, em uma conferência na Oxford Union em 2009, afirmou que a sua ideia principal era ridicularizar as mulheres obcecadas por um padrão de beleza utópico e muitas vezes inalcançáveis, causa pela qual costumam, muitas vezes, correr atrás de livros de autoajuda e dietas milagrosas.



“É uma doença moderna. Percebi isso me atingir quando ia para sessões de fotos e depois olhava as capas de revistas comigo completamente modificada e pensava: Quem dera que eu fosse assim. (...) Mesmo que eu tenha negado tantas vezes que eu era a Bridget... Eu realmente era.”
                                                                                                                             
                                                                        Helen Fielding





O retrato de uma geração crescente de mulheres inseguras e solitárias instigou um novo mercado de consumidoras nada convencionais: As encalhadas. Por mais frio que isso possa soar, o grupo de cat ladies (termo americano para as solteironas de meia idade) popularizado em uma época pós-feminismo dos anos 60 se tornou, praticamente, uma casta social da atualidade. E a literatura, como qualquer outro tipo de produto nos dias de hoje, acompanhou – e influenciou – a formação desse cenário com o fenômeno do Chicklit.

Desconhece o termo? Vamos logo direto ao ponto: Chicklit, do inglês “literatura para garotas”, abrange uma série de livros nos quais uma protagonista do sexo feminino vivencia inúmeras situações típicas do complexo universo da mulher moderna. Muitas pessoas acreditam que o romance é a principal característica do gênero, mas não – Família, amizade, dinheiro, trabalho, sexo e drogas estão constantemente presentes dentro da lista de temáticas possíveis de se encontrar em seu conteúdo. Depois do sucesso do livro Bridget Jones, a década de 90 presenciou uma verdadeira enxurrada de títulos parecidos com a obra de Fielding, como o posterior sucesso de Melancia de Marian Keyes (1995), a boca suja de Sex and the city de Carrie Bradshaw (1997) e os cartões de créditos estourados de Os Delírios de Consumo de Becky Bloom da Sophie Kinsella (2000), autoras que até hoje fazem sucesso no grupo da velha guarda chickliteira.

Foi nas mãos da dona do gato de um olho só mais famoso do mundo que a transição do chicklit para o território adolescente foi feita, e não demorou muito até o nome de Meg Cabot ficar conhecido por trazer Mia Thermópolis ao mundo dos livros. O Diário da Princesa (2000) apresentou aquela garota insegura que já conhecemos, porém, inserida em um contexto teen repleto de mean girls (as “líderes de torcida antipáticas”) do ensino médio, puberdade e aquele amor platônico comum da adolescência. O livro entretanto, insere um elemento interessante a trama – A quebra do enredo rotineiro. Em The Princess Diaries, Mia descobre que é a herdeira do trono de Genovia, e  através dos ensinamentos de sua avó, ela deve se desligar da vida de uma adolescente comum para se transformar em uma verdadeira princesa.

“Eu fui inspirada a escrever O Diário da Princesa quando minha mãe, depois da morte do meu pai, começou a namorar um dos meus professores, assim como a mãe de Mia fez no livro! Eu sempre tive uma “coisa” por princesas (meus pais costumavam brincar que, quando eu era pequena, eu dizia que meus “verdadeiros” pais eram um rei e uma rainha, e que era melhor eles me tratarem MUITO bem!), então eu coloquei uma princesa no livro só para testar... E VOILÀ! O Diário da Princesa nasceu.”
                                                                                                                                                                     
                                                                                        Meg Cabot




A história de Mia deu para as garotas adolescentes do começo dos anos 2000 uma “melhor amiga” destrambelhada e cheia de problemas tão parecidos quanto os dela, com a adição do velho sonho americano: “Coisas incríveis podem acontecer com qualquer um”. Garotas podem sonhar? Meg Cabot presenteou cada menina com a capacidade de ver sua própria vida através de um diálogo interno cheio de humor, transformando o desespero de garotas nerds e tímidas em características de uma possível heróina, algo que até o momento, não se via representado nem em filmes da Disney. A partir daí, vários títulos seguiram a linha no mercado teen, em títulos como A Irmandade das Calças Viajantes de Ann Brashares (2001) e Gossip Girl (2002) de Cecily Von Ziegesar


Os anos passaram, autores se consagraram e o universo feminino entrou em um processo de estagnação. Tudo parecia normal até uma das maiores reviravoltas na ideologia chicklit mudar completamente a literatura adolescente: Chegamos na época Crepúsculo, a galinha dos ovos de ouro de Stephenie Meyer. 



Em 2005, Stephenie Meyer publicou pela primeira vez o primeiro livro da saga Twilight, um romance sobrenatural sobre o amor de uma garota humana e um vampiro de quase  104 anos de idade. O livro, descrito pelos críticos como “um romance obscuro que contamina até a alma” é aclamado pela “forma como captura perfeitamente a tensão sexual e a alienação dos adolescentes”. Mas a sua fama alcançou as grandes massas quando em 2008 a adaptação cinematográfica do livro veio à tona pelas mãos de Catharine Hardwicke, o que foi responsável por arrecadar mais de 392 milhões de dólares ao redor do mundo. O sucesso garantiu uma nova vertente dentro dos patamares chickliteiros – O desejo pelo diferente, sombrio, novo e surreal.


"Eu não escrevi esses livros especificamente para o público jovem. Eu os escrevi para mim. Eu não sei por que eles os separam tanto por idades, mas eu acho confortante que várias mulheres de trinta e tantos anos com filhos, como eu, respondam tão bem por essa série – Então não é só por eu ter uma garota de quinze anos dentro de mim!"
                                                                                                                                        
                                                                          Stephenie Meyer






Sucesso é algo que não pode ser contestado. Entretanto, o que dizer sobre a experiência de conhecer Bella Swan? Lembro-me bem de ter comprado o primeiro livro perto do filme ser lançado, quando o modismo dava seus primeiros passos. O que constatei no estilo de Meyer escapou completamente do que eu esperava. Em uma mistura de literatura de banca com resquícios de tudo que Anne Rice não usaria,  Meyer proclamou uma história de amor fadada ao melosismo - Fato que pelo qual um amplo grupo de feministas odeiam a autora, principalmente pela insustentável dependência de Bella por um vampiro, no retrato de uma "relação abusiva". Meyer jogou a posição da garota anos luz para trás, tirando os seus trejeitos de uma mulher racional e a transformando quase em um objeto sub humano. Críticas as quais eu não posso fazer nada a não ser balançar a cabeça em concordância. 

A ideologia de Meyer espalhou uma onda de livros sobre vampiros, lobisomens, anjos, imortais, zumbis e curupiras (?). O mercado de chicklits saturou as estantes com obras como Sussurro (2009) de Becca Fitzpatrick, Para Sempre (2009) de Alyson Noël, House of Night (2007) de P.C Cast e Kristin Cast entre tantos outros trabalhos que seguiram essa nova tendência. As livrarias nunca estiveram tão recheadas de histórias sobre girl meets vampire, anjos que reencarnam até reencontrar o amor da sua vida, lobisomens selvagens lutando por meninas indefesas etc.

A garota moderna não deve mais ser a menina dos holofotes, uma Miss Simpatia de cabelos loiros e com o título de representante de classe. Não há mais tanto blábláblá de popularidade, principalmente porque ninguém mais quer ser aquela que é padrão para todo mundo e com uma coleção completa de roupas de marca da estação. Estamos nos tempos da menina indie envolvida com política, com um guarda-roupa de camisa flanelada, fã de rock alternativo e dona de um tumblr sofisticado. Estamos vivendo o momento de se expressar. Ser diferente é ser normal em 2012. O círculo vicioso continua e tudo que vemos é o quanto, no final das contas, fugir do padrão virou um padrão e mesmo que as maquiagens básicas tenham atacado o lápis gótico, a verdade é que isso não tornou nada mais inovador... Apenas trocou de naipe. O chicklit conta a história da garota de hoje, tanto quanto contou a de ontem e irá, um dia, se transformar na do futuro. Independente do orgulho dos conservadores, do preconceito pelo modismo, da razão de Sookie Stackhouse ou a sensibilidade de Becky Bloom... Um livro começa pela persuasão de suas palavras.

Esse post é uma homenagem as alfinetadas de uma mulher que tornou tudo isso possível.
Jane Austen 
1775 - 1817



Postagem mais recente Postagem mais antiga Página inicial

0 comentários: