O Arquiteto do Esquecimento - Marcos Bulsara, Por Trinta.

By | terça-feira, abril 10, 2012 3 comments


Quando você ganha um livro de presente, qual a primeira coisa que passa na sua cabeça? Sou sincero: “Espero que eu realmente goste disso.” Não há nada mais constrangedor do que gastar seu tempo com uma bomba embrulhada com carinho e amor, dessas que nem para a tarefa de matar o tédio consegue fazer o requisito. O problema se agrava ainda mais no momento em que você não consegue desistir. Por mais que abandonar aquele trambolho pareça compreensível devido às circunstâncias, a etiqueta das boas maneiras logo sussurra no seu ouvido um - Continue! Ele foi comprado especialmente para você. – tão arrogante que o prazer da leitura se transforma numa obrigação ditatorial. Vou até botar a boca no trombone e chocar a sociedade com essa minha conclusão: Não sei se gosto de ganhar livros. Acho que a experiência de escolher o que você vai ler faz parte do processo de apreciar o produto final. Claro que não é impossível receber grandes surpresas... Mas sempre terá um “E Se” nada convidativo. Um E Se que, infelizmente, vou exemplificar com a promessa sem resposta feita por O Arquiteto do Esquecimento
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“Qual a parte da sua vida você gostaria de apagar?”, diz o slogan numa estratégia fascinante de instaurar uma curiosidade pelo o que está por vir. Não sei bem quanto a mim, mas Doran Visich certamente gostaria de esquecer toda a sua sina, um emaranhado de lembranças de sua irmã desaparecida, tristezas referentes à uma subvida na Segunda Guerra Mundial e a criação de um remédio capaz de revolucionar toda a história da medicina – A droga da amnésia. O enredo principal realmente nos sufoca com todos os caminhos que o autor Marcos Bulsara apoia sua obra e, sinceramente, com base nos primeiros capítulos e no visual arrojado do livro, até consegue te deixar na expectativa. Acho que isso merece uma ressalva: Provavelmente esse foi um dos títulos de ficção brasileira com o design mais satisfatório que já vi. Capa bem feita, belas divisões das “partes” da história, arte bacana... Mas nada que salve a trama de um problema gravíssimo de identificação com os personagens: Você simplesmente... Não se importa.

Não dá. Sentir que tudo que está sendo relatado não tem alma, emoção ou profundidade acaba com qualquer vontade de se conectar. Não sei se existe uma forma de atribuir culpados para o motivo de isso ter acontecido comigo em O Arquiteto do Esquecimento, mas talvez a gama de personagens incolores e os diálogos robóticos possam ter sido responsáveis por essa falha. Ouvir os sofrimentos de Doran e não contrair qualquer sensação de piedade dentro de si – e estamos falando de um judeu em 1945! – me deu certeza da rasidade do personagem. As características estavam lá... Mas e as peculiaridades? Ou ao menos a boa execução de clichês? É uma balança imprescindível de ser consultada: Ou você inventa ou aperfeiçoa. Acredito que Bulsara não conseguiu atingir nenhum dos dois alvos.

 A divisão do livro me deixou atordoado também. Achei que, em alguns momentos, quando a história estava começando a ganhar alguma consistência, uma mudança brusca no tempo acontecia e boom! Vamos mudar completamente o núcleo da história de novo. Não houve tempo de se associar com os VÁRIOS cenários exatamente por esse excesso de detalhes e, consequentemente, a falta de ação. Não é à toa que o livro ganha um estigma de “parado” com o tempo. Consegui notar também uns sérios problemas de edição – Meu livro veio com algumas páginas EM BRANCO! – e digitação que não deixou de me distrair às vezes. Ah, e não dá para esquecer o fato de que toda a história da droga da amnésia em si é POUQUÍSSIMO abordada, sendo apenas uma trama secundária para o drama do personagem principal. Como assim, produção? O slogan do livro era apenas marketing? Não pude deixar de me sentir enganado. E não há nada mais chato do que a sensação de promessa não cumprida.
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3 comentários:

  1. Nossa!
    Fiquei impressionada com sua resenha porque, até então, só havia lido comentários bons sobre este livro.
    Mas é até bom conhecer uma opinião diferente, agora não vou com tanta sede ao pote.
    Beijos

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    Respostas
    1. Eu imaginei que seria um post diferente dos outros, principalmente por ser o primeiro que escrevo aqui com impressões não tão ositivas. É difícil ser tão categórico nessas circunstâncias, mas infelizmente, o livro não me conquistou. /: Beijos, amor!

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  2. Como é que um livro desses é Best Seller? .-.

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