Tudo Aquilo que Nunca Foi Dito - Marc Levy, por Trinta.

By | sexta-feira, maio 04, 2012 Leave a Comment




Bonne nuit, mis amis! Véspera de prova de francês e cá estou eu, completamente desesperado com um bando de conjugações verbais trituradas na cabeça (Verbos connaître e avoir, amanhã terei um encontro quente com vocês). Eu poderia dizer que o maior estímulo que tenho para estudar no momento é a minha responsabilidade de aluno dedicado (cof, cof), mas a verdade é que joguei tudo para cima me distrai com as últimas páginas de um livro que, para não manchar tanto a minha imagem, é de um autor francês! Acho que isso é uma desculpa boa o suficiente, né? Ok, não, mas esta delicinha chamada Tudo Aquilo Que Nunca Foi Dito do romântico Marc Levy consegue fisgar sua atenção sorrateiramente e, se Deus me permite a ousadia, não me arrependo de ter gastado as últimas horas dessa noite para apresentar para vocês esta doçura de história. Ganhar uma segunda chance de conversar com o seu falecido pai através de uma máquina (Não direi nada mais do que isso!) parece uma loucura para você? Acredite, por mais altos que sejam os vôos do livro, Levy conseguiu torná-lo um verdadeiro passeio no parque. "Calmez-vous!", meu povo: Este é um livro para aquele domingo sereno, com um CD do She & Him na playlist e uma mente aberta para as ruas de Berlim.

Vendo agora, a citação inicial do livro contorna muito bem a aura etérea de Toutes ces choses qu'on ne s'est pas dites: "Há duas maneiras de se encarar a vida, uma como se nada fosse um milagre, e outra como se tudo fosse milagroso" - Albert Einstein. Julia Walsh poderia muito bem dizer que sua vida dispensava qualquer milagre. Noiva de um homem respeitável, com uma carreira de desenhista bem-sucedida e um melhor amigo homossexual eloquente... Quem se importaria com os problemas do passado quando o seu presente parece tão confortável? Mas acreditar que tudo vai bem nunca esteve nos planos de Anthony Walsh, seu pai autoritário (Sei que o termo "planos" para este exemplo pode parecer prepotente, mas acreditem: Tem um motivo). Nem um pouco próxima da figura paterna, Julia recebe a notícia de seu falecimento convenientemente no dia de seu casamento.  Os anos da ausência de Anthony em sua vida voltam à sua memória carregados de um rancor acumulado pelo tempo...  E de repente, nada mais faz sentido diante de tantos pensamentos conflituosos. Como se não fosse o suficiente, uma surpresa no formato de um caixote gigante na frente de seu apartamento se materializa no dia seguinte do funeral do Senhor Walsh. E é aí que a leveza de Levy chega para apresentar a protagonista o quanto mesmo quando pensamos que não precisamos de nada, um milagre acontece em nossa vida para torná-la infinitamente melhor.

Primeiro elogio: Os diálogos desse romance são muito charmosos! Apesar de soarem um tanto utópicos em alguns momentos, o autor deu uma certa graça pra cada personagem, como se todos tivessem saídos de um livro - o que soa irônico, mas é exatamente este paradoxo que o torna tão meigo. A ideia, ao meu ver, é que todos tenham as respostas certas na ponta da língua, não de uma forma clicherizada, mas sim com um esbanjamento de personalidade bem impactante e caloroso - algo que fica bem evidente no personagem do melhor amigo, o Stanley (Para mim, o mais bem construído do livro). Ele é meio que aquele conselheiro sabe-tudo e clarividente que quase conduz os conflitos de Julia em pontos-chaves da trama com o tom de comédia suficiente para te conquistar.   

Porém, é no amor de Anthony por Julia, uma relação pai-e-filha desconstruída com cuidado por Marc, que o livro brilha. As intenções do Senhor Walsh soam perfeitamente como a de um homem arrependido em uma plena busca de reconciliação entre o seu passado como pai ausente e o futuro que sua filha ainda terá pela frente. Para isso, ele "programou" muitos conselhos e, eu diria, "reviravoltas" na vida de Julia, num amontoado de coisas que ele nunca chegou a realmente abrir para sua primogênita. Acho que uma bela verdade desse livro é o quanto esquecemos que nossos pais, antes de serem figuras familiares com responsabilidades sobre a gente, também são pessoas; respiram, vivem, se apaixonam, brigam e erram. Um dos nossos maiores erros como filhos é limitar os outros para aquela coisa que nos interessa, esquecendo que nós somos uma cornucópia de personalidades. Pai, amante, profissional, ser livre.

E se você pensa que esse livro é só drama familiar, está muito enganado. Não queria falar muito sobre esse ponto (digamos que há muitas surpresas por aqui), mas sim, há um enredo bem gostoso de romance dentro da história - Por mais que, ao meu ver, não seja tão inteligente quanto aos momentos pai-e-filha. Em cenários que variam de Canadá, França, New York até Berlim, Tudo Aquilo Que Nunca Foi Dito não reserva palavras na hora de te lançar dentro das descrições, esboçando muitos locais famosos que deixaram meus olhos invejosos por não ter dito a chance - Ainda! - de conhecer lugares como o Champs-Élysées ou o próprio Muro de Berlim. Fiquei com boas expectativas quanto a este autor, então não se surpreendam se futuramente encontrarem aqui um post de "Et si c'etait vrai...", livro do autor que originou o famoso filme E Se Fosse Verdade, estrelado por Mark Rufallo e Reese Witherspoon. C'est la vie, c'est la vie...

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