Modismo Literário - As piores escolhas feitas para vender um livro

By | domingo, julho 29, 2012 Leave a Comment
Deus sabe o quanto eu sou apaixonado por livrarias. Sou do tipo que posso perder horas bagunçando estantes, lendo sinopses e pensando em como arrumar direito as prateleiras das livrarias por gêneros. Quer dizer, talvez isso seja coisa minha (muito provavelmente) , mas eu já senti uma vontade cachorra de abrir o curso "Aprenda em 3 Módulos como organizar os livros na sua Livraria" tamanha a insatisfação que tenho com alguns erros absurdos que vejo por aí. Porém, entretanto, todavia... Depois do calor do momento, eu percebo que a culpa não é das pobres atendentes. Parece que os livros estão cada vez mais se apresentando errado, fazendo com que uma possível boa história caia no esquecimento por causa de uma capa mal-feita ou uma formatação infeliz. Estes não são equívocos de uma editora, mas sim de toda a indústria literária brasileira e, se duvidar, mundial. A maioria destes erros pode jogar sua culpa para o demônio chamado Capitalismo, mas o que é mais engraçado, é o quanto todas as idéias marketeiras a seguir não vendem. Não, não vendem.


Capa-pô$ter de filme

Eu costumava dizer "Ah gente, que frescura, deixa ter livro com capa do pôster! Tem umas capas de livro tão sem gracinhas, acha que não custa nada ao menos deixar a opção pra pessoa escolher." E é verdade. Sinceramente, muita gente tem um preconceito gigantesco com isto, mas eu não gosto da capa original de Um Dia por exemplo. Não via nada demais de ser produzida as duas, afinal, mais livro, né?   Tava tudo muito bom, tava tudo muito bem... Até que as editoras terem a PÉSSIMA ideia de lançar os livros no Brasil DIRETAMENTE com a capa-pôster. Dane-se a capa original, vamos logo aproveitar o marketing do livro e mandar os ilustradores para a rua! Rí-di-cu-lo. Agora a gente é obrigado a sempre andar com estes produtos - Sinceramente, isto nem mais parece um livro - obrigados pela vontade de o ler sem nem ter a chance de o ver apenas por aquilo que ele reamente é: Páginas e tinta. Tirar esta opção é um desrespeito com os leitores brasileiros.

As tristes e equivocadas recomendações "meh"

É melhor deixar bem claro que eu não me importo com quem fez a sugestão. O problema não é sobre quem estão utilizando para fazer as quotes, mas sim sobre O QUE estão falando. Seja Edgar Allan Poe, Frank Sinatra, Jesus Cristo ou a Tati Bernardi, apenas... Leia esta sugestão. Você se sentiria estimulado a comprar um livro que tenha estampado na capa que uma pessoa "passou muito tempo pensando na história depois de acabar o livro?" Será que eu vou ter mesmo que entrar no campo de o quanto isto soa como um trecho extraído de uma redação de quinta série sobre "o livro que você não leu nas férias"? Coloco aqui também coisas como "O novo Harry Potter" ou "Tão audacioso quanto O Caçador de Pipas", porque isto tem 100% de chances de ou denegrir a imagem do livro ou do pobrezinho que foi usado de referência. 



Sinopses Criativamente Preguiçosas

Sinopses atrás do livro? Que coisa mais demodé! O novo lance é colocar uma fotão do autor bem glam e escrever em letrinhas miúdas "Leia a página 78 para entrar neste mundo." Quando eu vi isto pela primeira vez, eu até achei "alternativinho", mas depois eu percebi que as editoras quase sempre fazem isto exclusivamente quando o livro é de alguma celebridade. Não demorou muito para eu notar o quanto isto esvazia a imagem do livro, deixando-o aparentemente supérfluo e superficial, como se só o que importasse é que a princesinha do pop o escreveu. Sem contar que a pseudo-sinopse "de página" nunca vai ter aquela apresentação editorial que muitas vezes nos chamam mais atenção do que um trecho aleatório que talvez não nos conquiste de primeira.

"Fica dito: Não se pode traduzir sem ter uma filosofia a respeito do assunto. Não se pode traduzir sem ter o mais absoluto respeito pelo original e, paradoxalmente, sem o atrevimento ocasional de desrespeitar a letra do original exatamente para lhe captar melhor o espírito."
 Conceituado tradutor Millôr Fernandes, em uma entrevista para Senhor - 1962.

Traduções mal feitas

Recentemente foi divulgado as traduções escolhidas para os nomes das facções do livro Divergent. Abnegation, Erudite, Dauntless, Amity e Candor se transformaram respectivamente em Abnegação, Erudição, Audácia, Amizade e Franqueza. Não vou aqui criticar todos os nomes - Acredito que Abnegação, Erudição e até Audácia foram muito bem escolhidos! - Mas... Amizade? A Patrícia mesmo comentou comigo o quanto Amity poderia ser traduzida para Amistosos ou Amorosos, apesar de serem adjetivos e não substantivos. Acredito que poderiam  ter quebrado a cabeça um pouquinho mais com as traduções oficiais, e isto não se encaixa apenas neste livro. Muitas editoras se esquecem que a tradução deve praticamente "reescrever" um livro novo, ao invés de procurar saídas mais práticas.

"Por Isso A Gente Acabou" trata, com a comicidade típica do autor, de uma situação difícil pela qual todos um dia irão passar: o fim de uma relação amorosa e toda a angústia, tristeza e incerteza que essa vivência pode gerar. Min Green e Ed Slarteron estudam na mesma escola e, depois de apenas algumas semanas de convívio intenso e apaixonado, acabam o namoro. Depois de sofrer muito, Min resolve, como marco da ruptura definitiva, entregar ao garoto uma caixa repleta de objetos significativos para o casal junto com uma carta falando sobre cada um desses objetos e do episódio que ele representou, sempre acrescentando, ao final, uma nova razão para o rompimento. Essa carta é o texto de Por isso a gente acabou, que é, assim, carregado de um tom informal e tragicômico – características da personagem – e traduz com um misto de simplicidade e profundidade a história de uma separação. Imerso neste universo adolescente, o leitor conhecerá a divertida personalidade de Min, uma garota apaixonada por filmes cujo sonho é ser diretora de cinema, e as idas e vindas deste romance, desde o dia em que os dois conversaram pela primeira vez até o instante em que tudo acabou. A artista Maira Kalman, autora de diversas capas da revista The New Yorker, ilustrou cada um dos objetos da narrativa, trazendo cor e descontração a esta história dolorida. 

                                                              Público-alvo duvidoso

Eu adoro o Daniel Handler. Ele tem essa coisa especial de conseguir ser infantil e maturo ao mesmo tempo, como uma criança de cinco anos que sabe que os pais vão se separar antes mesmo dos próprios descobrirem isto. Porém, talvez por ele ter esse estilo bem, bem específico - Os livros dele tem até ilustrações! - Muitas pessoas não entendem que as suas obras NÃO são infantis. "Por Isso que A Gente Acabou", por exemplo, fala sobre sexo, término de relacionamentos, álcool e até contém palavrões. Quando eu fui comprar o meu, o encontrei junto com livros como o Diário de Um Banana e títulos infantis e pensei "Nossa, será que só porque é do autor de Desventuras Em Série eles resolveram colocar este livro aqui"? Não acho que se deva tirar as ilustrações ou perder a "cor" do livro, nada disso. Porém é inegável que algumas coisas poderiam ser modificadas, seja com um aviso ou em uma reestruturação do livro (Talvez com uma nota avisando que é um romance pro público jovem ou coisa do tipo). Errar o público-alvo é mais do que perder possíveis leitores, mas também enganá-los com um produto que não era exatamente o que eles queriam.


Mais do que escrever um livro existe FAZER um livro. Criar um conceito, construir uma ideia, desenhar uma história sobre linhas muito mais do que literárias, mas imagéticas e conceituais. A literatura não pode repousar apenas na segurança de que um leitor vai confiar cegamente no que um livro promete, simplesmente porque "Não se deve julgar um livro pela capa". Bobo, bobo é aquele que acredita que o ser humano é uma pessoa tão consciente para ter tamanha sapiência. O meu sentimento neste post não é de revolta. Não. É de amor. Porque eu acredito que, por mais que todos os erros aí em cima sejam questionáveis, eu entendo que tudo que as editoras procuram é chamar a atenção das pessoas e falar "Hey, livros também podem ser legais e modernos". Eu também quero que as pessoas descubram isto. Todos nós, leitores, queremos este futuro para a literatura. E esperamos muito que com esta crítica construtiva, o mundo da literatura possa um dia ser o dobro do que hoje ela já é: Sublime

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