Paralela Mente: O poder do diário, por Natan

By | quarta-feira, setembro 05, 2012 Leave a Comment
                                                                 
                                                                                          foto: Getty Images (editada)
Bom dia, seus lindos!

Estou dando bom dia porque estou escrevendo isto de dia, mas leia-se boa tarde, boa noite ou boa madrugada, ou então compreendam “dia” como período de 24 horas, não só apenas como manhã e tudo fica certo. Como vocês estão? Bem, né? Certeza.

Conforme prometido, voltei. Voltei e vim falar de um assunto, ou melhor, de uma coisa que eu acho que, atualmente, por causa da modernidade e sei lá por quais outros motivos, caiu em desuso, ou, se não caiu, perdeu bastante popularidade: o diário.

Na verdade eu nunca tive um diário, até porque isso sempre foi considerado coisa de menina e eu, quando em época de ter diário, fugia de coisas de menina porque sou tão hipster, mas tão hipster que sofria bullying por ser viadinho mesmo antes de as pessoas saberem o que é bullying. Não é o máximo?! Não, né. Mas pois é, eu fugia das coisas de menina e diário era uma delas, embora desde pequeno eu gostasse de escrever. Comecei a escrever mais a sério depois de adolescente, mas um caderninho não podia faltar. E esse hábito começou, mais precisamente, no final de 2004/começo de 2005 em razão de um evento muito importante na minha vida: minhas primeiras crises de identidade sexual. A quem se encaixa no contexto, uma crise de identidade sexual é aquele momento em que você tragicamente pergunta a si mesmo: será que eu sou?...

Demorou um bocado até que eu me respondesse “sim, eu sou”. Eu era novinho, devia ter uns 12 anos [sic]. Até os 15, quando eu finalmente saí do armário, minha sexualidade era tabu até pra mim mesmo, então eu não tinha ninguém com quem conversar a respeito, ninguém com quem eu me sentisse confortável pra compartilhar minhas dúvidas, meus medos e tudo. Então o que eu fiz? Peguei uma agendinha e comecei a escrever. E nessa época eu já era tão lindo que escrevia na minha agendinha em Inglês pra nenhum curioso entender, se viesse bisbilhotar.

Desde então eu não parei de escrever. E de uns tempos pra cá a escrita tem me sido uma aliada extraordinária, e foi essa reflexão que me fez pensar o quão fantástico, incrível, sei lá, até medicinal é o poder da escrita. E, ao mesmo tempo, fico um pouco impressionado ao perceber quão pouco as pessoas escrevem. E não estou falando de abrir um documento no Word e começar a digitar, não (isso também tem sua valia): estou falando de papel, caneta, folha, caderno. Não sei se as pessoas reparam nisso, e imagino que não, mas existe um abismo separando “digitar” de “escrever”. Enquanto você digita, provavelmente está com todas as suas redes sociais e mais inúmeros outros sites abertos, conversando com pelo menos duas pessoas e ouvindo música. Ao escrever, estão apenas você e o caderno. É um processo indizivelmente mais íntimo e, por isso, arrisco dizer, mais efetivo.

Pense num problema, um problema que te aflige muito (vale ressaltar que estamos falando de problemas emocionais, sentimentais, comportamentais. Se você estiver com problemas financeiros, vá trabalhar). Sabe aquele problema, ou aquela situação que te vem à cabeça quando você deita a cabeça no travesseiro?, aquela angústia? Então. Conversar sobre ela com seus amigos nem sempre é uma boa opção, porque as pessoas geralmente são preconceituosas e nunca sentem o que você sente. Por mais que você descreva o que está se passando, a sua dor é só sua, ninguém vai conseguir medi-la através das suas palavras, não é? Pois é. Considero psicoterapia uma alternativa eficaz, também, mas eu, pelo menos, não tenho dinheiro pra pagar nem uma sessão, quanto mais várias, além de que encontrar um psicólogo que agrade também não é tarefa fácil. Viu? Já te dei dois bons obstáculos que te incentivam a guardar seu problema bem aí contigo, e é nesse tipo de situação que eu aconselho: escreva.

Não existe melhor ouvinte e entendedor do que uma folha de papel. Não-existe. A folha te ouve calada, entende e aceita tudo o que você diz sem te questionar ou recriminar, não tem um pingo de preconceito, é extremamente confiável e sigilosa e te conforta de uma maneira muito peculiar. Ela te exorciza. Sim. Imagine seu problema como um demônio que se apossa do seu corpo e que, de vez em quando, aparece e te atormenta. Ao escrever, você literalmente tira esse demônio de dentro de você. Se não tirar, através das suas próprias palavras, relendo, refletindo, você vai encontrar uma forma de exorcizá-lo, e isso vai tirar um fardo das suas costas.

“Como assim ‘encontrar uma forma de exorcizá-lo?’”

É simples: enquanto você digita ou escreve, você não lê pra si mesmo o que está sendo digitado ou escrito? É automático. Não prestamos tanta atenção a esse detalhe porque hoje em dia fazemos as coisas meio mecanicamente, mas acontece. Tudo que se passa pelos dedos é lido, a diferença é a atenção que prestamos ou não. Se um dia você for escrever sobre o que te aflige, é óbvio que a atenção prestada vai ser muito maior do que aquela que você presta enquanto conta como foi seu dia a um amigo. Por isso, você se torna seu próprio analista. Através da leitura das suas próprias palavras, você consegue se afastar da sua história e enxergá-la com outros olhos. Não é muito doido isso? Muitas das minhas ideias pra histórias, ou ainda quando me dá aquele bloqueio e eu chego numa parte em que penso: “e agora? Que rumo eu tomo a partir daqui?”, eu pego o que chamo de Diário de Bordo e começo a colocar meu pensamento no papel, e digo colocar exatamente como ele se passa, por exemplo: “puts, parei numa parte em que não sei mais o que fazer... Pensei em colocar Fulano fazendo isso e Ciclana, aquilo, mas isso lá na frente... PERA, JÁ SEI!”. Fluxo de consciência. Afastar-se, nem que à distância de um papel e uma caneta, sempre te ajuda a examinar melhor as situações, encontrar meios, soluções, alívio, aceitação... Parece pífio, mas funciona. Pergunte a Anne Frank quando encontrá-la lá do outro lado. É batata.

E eu vou ficando por aqui. Já falei demais, haha. Então fica aí a minha dica de vida pra você, querido(a) leitor(a). Quando estiver naquele momento em que ninguém parece te entender, ou que ninguém parece <insira aqui qualquer adjetivo> o suficiente pra saber do que se passa aí dentro, procure os papel e caneta mais próximos: eles hão de te ajudar bastante. Um beijo grande pra todo mundo e a gente se vê por aí. 

Até logo!


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