Histórias Extraordinárias - Edgar Allan Poe, por Julio.

By | quarta-feira, dezembro 05, 2012 Leave a Comment

Filmes de terror sempre me despertaram fascínio – lembro-me de que um dos primeiros  que assisti na vida foi Chuck, o Brinquedo Assassino. Eu tinha uma lista de todos os filmes de terror que já havia visto, e esses passavam das centenas facilmente! Um dia, então, eu comecei a ler contos de terror, coisas que achava perdidas na internet, ou eu mesmo os escrevia – embora nunca tivesse talento para redigir esse gênero. Até que, um belo dia, encontro um texto sobre uma grande personalidade da literatura macabra: Edgar Allan Poe.  Porém, nunca achei NADA do mesmo para ler, o que me frustrou por bastante tempo. Não obstante, recentemente, por uma linda jogada do Destino, achei o mesmo na biblioteca da escola. Foi tamanha emoção e êxtase que me cobriram naquele momento, uma energia que eletrizava cada partícula existente e imaginária em mim! Vocês conseguem imaginar-se na frente a um Deus ou algo parecido? Não? Ok. ENFIM, naquele momento, meu instinto falou tão alto que eu, sem pensar nas consequências, agi feito um gatuno, enfiando o livro de forma discreta na mochila. Isso foi apenas uma cena de algo que se repete até hoje, porém não posso induzir ninguém a fazer isso, é ilegal! Claro, apenas se te pegarem no flagra.

Vamos pular a parte onde eu amo terror e eu roubei um livro do patrimônio público. (Notam como essa parte tem um certo efeito? “Roubar algo de patrimônio público” poderia indicar que roubei uma estátua famosa ou a Mona Lisa do governo francês! Eu amo esse exagero causado pelas palavras.) Eu roubei o livro. Foi aí que eu o abri.

Desculpe, eu não falei que livro era, né? Se chama “Histórias Extraordinários”, é uma coletânea de contos (sério, Julio?!)... extraordinários. Sem mais. A edição que eu tenho ilegalmente possui quatro contos ilustrados (quase morro com esses desenhos) por Poly Bernatene, e foi lançado pela editora Melhoramentos.

Agora, vamos à receita de Edgar Allan Poe:

Coloque uma dose de obsessão, um punhado de metáforas sombrias e um eu-lírico perturbado, sem se esquecer de doses de acidez, e, é claro, de gelo para completar. Edgar Allan Poe consegue criar uma narrativa completamente envolvente e trágica em sua coletânea de Contos Extraordinários, cujas historias são retratadas em clima sombrio, desesperador e visceral. Você sente a dor, o medo e a angústia do autor em suas metáforas, tudo através de cenas que podem nos parecer incrivelmente realistas. É como se um medo profundo se transformasse em uma facada, ou seria a facada que o personagem levou fruto de sua fobia? Bem, isso depende muito do ponto de vista do leitor.

Os contos presentes no livro são: “A Máscara da Morte Vermelha”, “O Coração Revelador”, “O Gato Preto” e “O Retrato Oval”. Todos eles tem excelência em um terror psicológico, nada que te assuste como ler Stephen King ou ver Chuck, mas, certamente os contos te proporcionam uma agonia.Vou dar uma análise pessoal e curta (não quero dar spoiler, tenho mania disso) sobre cada uma das histórias.

(As frases em itálico contém spoilers. Não tão graves, mas spoilers)

Começamos com A Máscara da Morte Vermelha. Esse é o meu favorito, por mais que não seja um dos mais famosos do autor. Ele trata-se de um jogo de narrativa direta e um pouco... deixa eu ver... alegórica. O castelo onde se passa a história é tão complexo e possui cantos tão sombrios que me faz pensar que poderia ser a própria mente do autor. Agora, imagine se algum “estranho” adentra o seu “castelo” e começa a matar todos os seus “habitantes” (olha o spoiler aí!)? O que será esse visitante? Um alter-ego? Seu subconsciente? Eu não sei, sinceramente, mas é macabro pensar na ideia de que tudo no meu “castelo” poderia ser destruído  – sonhos, ego, identidade. Imagina só?

Somos então levados para a história do Coração Revelador. Bem... Eu não entendi direito a síntese que esse conto pretendia passar (será que ele queria passar alguma coisa? Para mim, Edgar não era um autor que se preocupava tanto em passar uma mensagem. Parece que ele escrevia como forma de fuga ou delírio, amo/sou). Esse texto nos faz mostra o lado ambíguo e seu sentimento de culpa que o torna insano e autodestrutivo.

Logo em seguida adentramos na história mais famosa do autor, O Gato Preto. Este é, sem sombra de dúvida, o conto mais pessoal e desesperado de Edgar (me faz pensar que realmente aconteceu!). Vemos um Poe consumido em álcool e loucura, onde sua própria mente prega peças e ele acaba por adquirir hábitos tão sombrios que o levam extremas atitudes. Vemos um lado possessivo e sombrio do autor, que pode ser simbolizado pelo próprio gato preto, que se chama Plutão – o Deus romano da Morte e do Submundo, que pode ser interpretado de várias formas. Allan Poe vê-se em toda uma loucura, todo um fetiche (oi?) e fanatismo interior que foi projetado no bichano. No fim, temos a impressão de que toda a carga mental e emocional que ele depositou no animal virou-se contra ele, causando a sua destruição.

Por último, temos o Retrato Oval, esse é outro que eu não entendi, sabe? É a história de um quadro. Ah, pera, acabou de me vir uma teoria na mente (gente espontânea, a gente se vê por aqui!). A história do quadro é de que o homem pintou o quadro perfeito, e enquanto pintava este, não notou que a modelo – sua esposa – sucumbia em doença em morte, permanecendo apena passiva e quieta, aceitando a condição. Ela se contentou com a morte iminente apenas para dar satisfação ao homem que amava. É outro caso de um sentimento de posse e foco exagerado, onde só temos olhos para tal coisa, e acabamos por dispersar. No caso do escritor, ele perdeu as estribeiras, mas vemos nisso o quanto o autor revela novamente de si – com a sua própria mania, o seu “Deus pessoal” que o levou a tais coisas descrita por ele em diversos de seus contos. Vemos nos contos de Poe as suas manias autodestrutivas e de total loucura, algo que parece ter sido criado por ele mesmo. A mania do julgamento próprio, a sua loucura que entrega seus atos e parece controlar ele, uma batalha interior que só leva ao caos da mente.

A princípio, é isso. Existem várias versões de Histórias Extraordinárias, e recomendo todas elas para os amantes do gênero. Sério. Menos um conto que li sobre uma múmia falante, aquilo não é terror, é política. 


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