Goodreads: Entrevista com John Green (Parte 1 de 3)

By | quarta-feira, fevereiro 06, 2013 Leave a Comment

O sucesso de A Culpa É Das Estrelas em 2012 é inexplicável. Talvez eu seja um tanto tendencioso quanto a isso, mas se olharmos para toda a repercussão positiva que esta obra ganhou desde então podemos ter uma certa noção do quanto John Green realmente não perdeu (ou melhor, nunca perdeu) a mão. Por isso, o Escolhendo Livros, sabendo que nerdfighter é o que não falta nesse mundo, decidiu trazer para vocês uma entrevista exclusiva que o autor fez para o site e rede social Goodreads, um bate-bola divertido, intenso e muito pessoal. Dividiremos esta tradução em três partes para sua melhor comodidade e honestamente? Não há como não se divertir com o jeitinho único de Green.
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Um ônibus da turnê. Fãs escandalosos. 150 mil autógrafos pré-vendidos. Talvez isso soe como o lançamento de um álbum da música pop, mas este foi o frenesi que acompanhou a publicação do último lançamento do autor de literatura young adult John Green,  responsável por "A Culpa é das Estrelas". Um pouco desta empolgação antecipada veio da leal base de seguidores onlines de Green, conhecida como Nerdfighters (apesar deles estarem mais para amantes nerds), que se ligam semanalmente no hilário e frenético vlog do autor e de seu irmão. Há também os leitores que levaram seus livros anteriores ao sucesso, incluindo Quem é Você, Alaska? (2005), An Abundance of Katherines (2006) e Paper Town (2008), assim como o trabalho colaborativo feito em Will Grayson, Will Grayson (2010) junto com David Levithan.  

A Culpa é das Estrelas, obra a qual permaneceu por 44 semanas na lista de best-sellers do The New York Times, é tanto mais forte quanto mais romântica do que qualquer outra coisa que Green já escreveu. Essa história de amor sobre dois adolescentes com câncer não se intimida na hora de falar de morte - como um antigo estudante de Estudos Religiosos, Green concebeu a ideia mais de uma década atrás enquanto servia como capelão em um hospital de crianças. Aqui, ele conversa com Jade Chang sobre complexos de herói, ler Infinite Jest como uma escritura sagrada e pixie dream girls* super loucas.

Goodreads: As pessoas normalmente querem ser visitadas por um capelão?

John Green: Variava muito. Eu acho que as pessoas religiosas tendem mais a querer um por perto, mas é uma questão bem secular. Você está ministrando para várias pessoas não-religiosas. Eu não acho que que ministrar requer um contexto religioso por trás. A coisa número um é que todos os pais estão extremamente preocupados com suas crianças. É claro, quando um capelão aparece, isso pode mais aumentar esta preocupação do que acalmá-la.

GR: Quase uma década depois você conheceu Esther Earl, uma adolescente a qual inspirou várias pessoas com seus vídeos no youtube e blogs antes de morrer de câncer na tireóide. Como vocês se conheceram?

John Green: Nós nos conhecemos em uma conferência de Harry Potter em 2009. Meu irmão canta músicas de Harry Potter, e elas são bem populares - ele vai para várias dessas conferências e eu fui em uma dessas em Boston. Então eu fui para esse show na conferência; E tinha muita dança acontecendo por ali. Eu não danço e ela também não, então acabamos conversando no final da sala e ficamos amigos.

GR: Você tinha falado sobre ela ser uma inspiração para A Culpa É Das Estrelas

John Green: Eu nunca poderia ter escrito isso se eu não tivesse conhecido Esther. Ela me apresentou para várias ideias presentes no livro, especialmente a esperança em um mundo que é indiferente para os indivíduos e a compaixão. Ela reprocessou o sentido de morrer jovem para mim.

Quando sai dos hospitais em 2000, eu sabia que queria escrever uma história sobre crianças doentes, mas eu estava tão zangado, tão furioso com um mundo em que essas coisas podem acontecer, e elas não eram nem raras ou incomuns, que eu acho que, no final, durante esses dez anos e tal eu nunca poderia ter o escrito porque eu estava realmente muito irritado e não estava capacitado para compreender a complexidade do mundo. Eu queria que o livro fosse engraçado, Eu queria que o livro fosse sem sentimentalismo. Depois que conheci Esther, eu me senti muito diferente quanto a perspectiva de uma vida curta ser uma vida rica.

GR: Você achava que não poderia ser? 

John Green: Eu acho que eu nunca realmente imaginei isso dessa forma antes de conhecer Esther. Ela viveu uma vida bem completa, rica e boa apesar de morrer aos 16. Não reconhecer a o lado bom e rico dessa vida seria um desserviço para ela.

GR: Parte do desafio de escrever sobre uma criança com câncer, especialmente quando o livro é inspirado por uma criança real com uma doença real, é não transformar a criança em um herói só por estar doente. Isso é claramente algo que você lutou e os seus personagens lutaram contra, mas no final Hazel e Augustus são especiais, Esther Earl parece especial - o que os torna assim?

John Green: Bem, toda boa literatura americana é sempre interessada em pessoas que são ambiguamente heroicas, como Gatsby. Há sempre uma quantidade de incerteza na jornada do herói. Até em Huckleberry Finn há uma ambiguidade quanto ao heroísmo da jornada do protagonista, e eu certamente não queria dizer que Hazel e Augustus não são heróis, porque eu queria que eles fossem heróis. Eu queria que eles fossem heróis não porque eles eram doentes mas porque eles optaram por escolhas árduas. Gus especialmente é obcecado com qual é a jornada de um herói, mas eu não queria que ele tivesse o tipo de jornada de herói que ele queria porque a vasta maioria de nós não tem.

GR: Isso é algo que você é obcecado?

John Green: Eu nunca fui. Provavelmente pensava nisso bastante quando era mais jovem, e então eu perdi o interesse porque eu tinha que pagar a hipoteca e cuidar da minha criança, mas me interessa como escritor - Como nós imaginamos que nossos heróis afetam nossa estrutura social.

GR: Como nós idealizaríamos os nossos heróis? 

John Green: Vamos imaginar um mundo onde nós não celebraríamos Snooki e as Kardashians. Há um amplo número de pessoas legais e nerds no mundo. Se nós reestruturássemos as coisas para vermos que uma jornada de herói é uma graduação em astrofísica ao invés de uma jornada para o estrelato em um reality show, isso seria um mundo melhor. Um dos trabalhos do escritor é adicionar nuances e ambiguidade na linha reta que as pessoas normalmente desenham para formas específicas de heroísmo. A maioria de nós não conseguimos ser Snookis. Para a maioria de nós o heroísmo tem que estar no dia-a-dia da vida.

GR: Mas você não acha que heróis nerds são bem celebrados nos dias de hoje?

John Green: Vamos ser honestos com o motivo disso estar assim: O crescimento da Internet e a "nicheficação" da Internet. Nós não zoamos pessoas que celebram esse tipo de coisa, por isso é possível ter heróis nerds. Eles existiram no passado, como o Mr.Wizard, mas eles tendiam a ser desumanizados e emasculados, eles tendiam a ter sua humanidade removida.

Se nós realmente reestruturássemos nossos ideais de heroísmo, nós teríamos um mundo onde o conhecimento é amplamente procurado não para conseguir uma graduação em física mas como parte de ser um ser humano completo.

GR: Ter um filho afetou a forma que você teve para escrever esse livro? Uma parte bem significante dele era sobre os pais e a forma como eles se relacionavam com o universo da criança, em uma forma que não acontecia em seus outros livros. 

John Green: Virar um pai me fez ficar muito mais interessado nos personagens dos pais em meus romances. Eu nunca me interessei muito pelos pais. Eu acho que quando você tem 16 anos, se você tem bons pais, eles geralmente desaparecem para dentro de um plano de fundo. Eu tive ótimos pais, e porque eles eram legais, eu pensava muito pouco neles em meu ensino médio.

A natureza do amor entre um pai e um filho realmente é literalmente mais forte que a morte. Enquanto as duas pessoas na relação estiverem vivas, esse relacionamento ainda está vivo.

GR: De certa forma, parece que um dos primeiros problemas que um escritor YA precisa resolver é como encontrar alguma liberdade para seus personagens. Na maioria das vezes, as pessoas o fazem se livrando dos parentes de alguma forma, mas nesse caso os pais são tão presentes mas ao mesmo tempo tão permissivos. Isso é algo que você observou muito em pais de crianças doentes? 

John Green: Eu sabia desde o começo que Hazel e Gus estavam em uma posição atípica, e que assim eles seriam mais dependentes de um adulto. Mas eles também fazem decisões bem maturas, e seus pais dão poderes para eles porque eles estão um pouco menos preocupados com a longevidade. Eles querem que seus filhos tenham a maior vida que eles podem ter.
                                                                                    
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Em breve, traremos a parte 2 da entrevista com muito mais insights sobre as origens e influências dessa obra-prima chamada A Culpa É Das Estrelas!






       
    ("Entrevista com John Green (Parte 1 de 3)" é uma tradução exclusiva do Escolhendo Livros deste artigo do  Goodreads.)

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