Madame Bovary - Gustave Flaubert, por Trinta.

By | sábado, setembro 21, 2013 Leave a Comment

Os conservadores podem até me linchar por dizer uma coisa dessa, mas acho fenomenal a utilização da gíria piriguete hoje em dia. Depois de anos sendo uma denominação estritamente popular - mais visível nas músicas de forró e no boca-a-boca da periferia - hoje, ser uma mulher "saidinha" é carregar uma grande conflito social nas costas. Falo aqui desta "nova" briga entre os que acreditam que as piriguetes são um fruto da degradação feminina e aqueles que levantam a bandeira da libertação sexual (A Marcha das Vadias que o diga). Aí eu penso: Quantas mulheres da história não gostariam de dar um pitaco sobre o assunto agora? Princesa Diana, Joana D'Arc, Isabel do Brasil... E a Emma Bovary, minha gente, porque se enfiarmos literatura no meio, esta aí ia jogar muita lenha na fogueira.

O casamento (fail) de Charles e Emma Bovary. 
Quando Gustave Flaubert escreveu Madame Bovary em 1856, Paris virou de cabeça para baixo com tamanha audácia. O choque veio devido a natureza questionável da heroína, que fugia completamente do esteriótipo impecável que as mocinhas deveriam ter. Emma era uma mulher romântica que se acomodou com o primeiro rapaz que lhe fez corte; Charles Bovary, um médico bondoso, mas intelectualmente limitado e de gênio fraco. Com o passar dos anos, Emma se vê entediada com a rotina, uma insatisfação tão grande que facilmente se transforma em ódio e raiva. Para ela, Charles é o culpado por afastá-la da felicidade de encontrar o homem viril e galanteador que tanto sonhava. É só somar um mais um para entender aonde essa história vai parar e principalmente, o motivo de tanto burburinho na França do séc. XIX.

Flaubert foi tão criticado pela obra que chegou a ir a julgamento, acusado de ofender à moral e à religião. Surpreendentemente, foi declarado inocente de todas as acusações, soltando uma de suas frases mais famosas no meio do tribunal: "Madame Bovary c'est moi!" ("Madame Bovary sou eu!", em francês). Lendo o livro hoje, dá pra entender muito bem o quão corajoso o autor foi ao mandar uma obra dessas para a publicação. Madame Bovary é a primeira piriguete da literatura realista.

Sou bem sincero: Eu me acabei de rir com as desculpas dramáticas que Emma Bovary dava para minimizar os seus ~desejos internos de liberar geral~. Boa parte do livro, a heroína sofre entre a pressão de ser a esposa dedicada de um chato de galochas e a vontade de fugir com o seu amante da vez (Sim, da vez). O autor é severo em suas descrições, sabendo exatamente como desenhar cada personagem, desde as belas qualidades até os piores defeitos; fazendo jus ao cargo de precursor do realismo. Tiro por exemplo o personagem de Charles, que foi tão bem elaborado, que consegui imaginá-lo na minha cabeça como se fosse um parente de família (aquele chato que nunca fala nada nos encontros de domingo na casa da vovó). 

Muitos podem jogar a culpa toda pra cima de Emma, mas a berlinda do livro também pertence ao Senhor Bovary. Não dá para ignorar o quanto Emma foi obrigada a se casar sim, não tanto por uma força física e representativa, mas sim psicológica. A realidade da época estava incrustada na cabeça de todas as mulheres; Emma sabia desde menina o quanto uma mulher devia se casar cedo, sob risco de ter o seu nome correndo nas ruas. Não existia amor sincero ali, mas a obrigação de cumprir um objetivo de vida, tanto da parte de Emma - ser a parte submissa de uma família - quanto da de Charles - se apossar de uma esposa. Por mais que fique claro no livro que Charles realmente ama a mulher, esta paixão não é nutrida pela pessoa que Emma é, mas sim pelo que ela aparenta ser, ou melhor, o que ela representa para o status quo de Charles.

A obra é impecável ao construir uma crítica social madura sobre o papel social da mulher na sociedade e por mais que eu tenha ficado um pouco enojado com a Emma em algumas partes (Queridinha, você não é Jesus Cristo crucificado!), é compreensível entender os infortúnios de sua vida. Madame Bovary ainda consegue ser uma personagem atual, o retrato da piriguete incubada, que hoje teria a chance de deixar a sua insatisfação de lado e viver a vida intensamente. Mas não é que isso da corda para uma boa readaptação da obra?

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