A Trama de Casamento - Jeffrey Eugenides, por Trinta.

By | sábado, dezembro 14, 2013 Leave a Comment
Jeffrey Eugenides, autor de as Virgens Suicidas, volta com um audacioso livro sobre feminismo nos anos 80.

















Há algum tempo atrás, a Patrícia apresentou por aqui uma jóia rara do começo dos anos 90. As Virgens Suicidas, romance de estreia do autor americano Jeffrey Eugenides, chamou atenção da crítica pela sua representação mórbida do amor jovem, ganhando ainda mais atenção na mídia após Sofia Coppola (que ainda era apenas "a filha do Francis Ford Coppola") adaptá-lo para as telonas. Apesar de nunca ter lido o romance em si, tive a chance de ver o filme e, sinceramente, não foi lá um brownie de chocolate com cobertura de caramelo. Ainda assim, eu sabia que eu ainda bateria com esse autor em algum momento da vida. Dito e feito.


Fonte: NY Times

Como quem não quer nada, estava voltando de uma viagem no ano passado e vi esta "capinha da torradeira" ai em cima em uma livraria-quiosque no aeroporto dando sopa. Em uma mistura de curiosidade reprimida e ansiedade de comprar livros por impulso antes do vôo, decidi que esta seria a minha incursão pela carreira do Eugenides. Só que, bem... O que vocês esperam de um livro chamado A Trama de Casamento?

Deixa eu falar o que eu esperava. Quando eu li na sinopse atrás do livro que a protagonista tinha dois pretendentes e precisava escrever uma monografia sobre os romances que se resumiam em "quem ela vai escolher?", a primeira coisa que pulou na minha cabeça foi "crítica a Crepúsculo". Na verdade, muito mais do que isso. Seria uma crítica a todos os romances unidimensionais e melodramáticos com um foco central em triângulos amorosos, através de uma narrativa metalinguística estilo "a vida imita a arte... Ou não". 

Depois disso, notei que o livro se passava nos anos 80, iniciando a narrativa a partir do dia de formatura dos três personagens. Aí o meu pensamento foi logo para John Hughes, apesar da total improbabilidade do autor sequer pensar em O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas como uma referência.

E é claro que eu estava errado. A Trama de Casamento definitivamente não é O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas.

No começo dos anos 80, os Estados Unidos começavam a receber o feminismo na academia com novos olhos. A jovem Madeleine Hanna, por exemplo, sempre se deliciou com autoras como Austen e as irmãs Bronte. No entanto, gostar de literatura não era mais a mesma coisa na academia dos anos 80, depois da inserção de críticos como Roland Barthes, Derrida e Michel Foucalt. "O autor está morto. Os livros viraram textos, a semiótica está desconstruindo a linguagem." Madeleine começa a se questionar se o que realmente a fazia querer se graduar em letras - o prazer de ler - era o suficiente. E para isso, ela começou a olhar a sua própria vida amorosa. Como se entregar a uma vida romântica em uma era pós-divórcios e o enfraquecimento do "felizes para sempre"? 

Assim como nos romances do século XIX, Madeleine também tem duas opções. Uma delas é Mitchell Grammaticus, um rapaz franzino de cabelos encaracolados que sofre de friendzone aguda por Madeleine. Talvez por este motivo, Mitchell parte em uma busca existencial pela fé e crenças ao redor do mundo, escolhendo a peregrinação religiosa ao invés de correr atrás da garota. Do outro lado, temos Leonard Bankhead. Intelectual, brilhante, sedutor, impulsivo, engraçado, tempestuoso. O tipo de homem que deixa Madeleine sem chão. Para nós, a escolha da protagonista é óbvia e previsível neste primeiro momento, mas esta é a pegadinha que o autor plantou para nós, leitores desavisados. 

A Trama de Casamento é um livro sobre o depois. O depois da faculdade, do início caloroso da juventude, da tomada de decisão tanto profissional quanto amorosa. Uma trama talvez não tanto sobre casamento, mas sim da ruptura com as expectativas da vida adulta. A história é dividida nas narrações dos três personagens principais, que nos conduzem pelo presente e passado para explicar as ações e reações que os fizeram chegar até onde estão. Isto, sinceramente, fez com o que livro acabasse remoendo sempre os mesmos fatos várias vezes pelo olhar de um ou outro personagem, repetitivamente. Após ler 50% do livro, fui pego de surpresa quando percebi que o período que tudo estava acontecendo era MUITO mais curto do que parecia. Nada que fosse lifechanging para a leitura, mas acredito que isto deixe o livro pouco dinâmico para alguns leitores.

Mas pegadinha mesmo, para mim, jaz na facilidade em "escolher" o vértice preferido do triângulo. Por mais impecável que seja a tecitura narrativa de Eugenides, o núcleo de Mitchell e sua viagem por Paris-Grécia-Calcutá, por mais exótico que seja, não é carismático o suficiente para bater os acontecimentos da vida de Leonard e Madeleine. E quando digo este núcleo,  na verdade falo especificamente do primeiro citado. 

Leonard é maníaco-depressivo. Só por isto, eu já diria pra vocês: É o personagem mais interessante. Só quando o autor decide contar a história a partir do olhar DELE que o livro ganha uma nova cor, um acinzentado meio ocre, que chegou a me empolgar pela intensidade que isto deixou nos acontecimentos, mas que infelizmente durou pouco, pois o autor preferiu voltar para voz de Madeleine. E este é o problema.

Por mais incrível que seja falar do feminismo, esboçar a mentalidade incidente da geração 80 e enfiar isto dentro da realidade dos três personagens, é chato dizer que apenas um dos personagens me pareceu likeable o suficiente. Quando terminei o livro e fui procurar outras resenhas na web para ter certeza que eu não tinha terminado com um ponto de interrogação à toa, vi uma crítica do The Guardian que falava o quanto Eugenides descreve Madeleine como uma jovem diferente e única sem nos mostrar exatamente qual é a peculiaridade da garota. E isto é algo que senti no livro. Seria um crime falar que Eugenides não descreveu bem os personagens, dissertou sobre o que eles gostam, o que acreditam, as crenças e descrenças de cada um, qualidades e defeitos... Mas, honestamente, eu não sei quem eles são. Não ainda. A minha experiência foi agonizante e por mais que este talvez tenha sido um dos intuitos do autor, eu não sei se isso foi uma coisa boa para mim, como leitor.

Fui deixado com um vazio no peito. Você deve ter percebido que esta crítica não tendeu para nenhum lado específico, como em uma encruzilhada de sentimentos. Mas é o que eu posso entregar para vocês: Reconheço as intenções e a qualidade da obra, mas não sei ainda se o saldo foi positivo. 

Se você já leu A Trama de Casamento também, adoraria ouvir a sua opinião também. Acho que nunca quis tanto trocar ideias sobre um romance. E ei, talvez isto seja uma qualidade também, não é?



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