Excalibur - Editora Draco, por Julio.

By | terça-feira, janeiro 28, 2014 Leave a Comment
Excalibur é a coletânea de contos arturianos da Editora Draco, contendo 12 variadas e inusitadas histórias de qualidade.



A Memória da Espada, Roberto de Sousa Causo, o primeiro conto se trata da história de Durius, o único homem que conseguira ferir o Rei Arthur em toda a existência. Morgana ressuscita o cavaleiro e faz dele seu criado, dando-lhe a missão de matar o rei. As coisas não são fáceis, porém, pois várias escolhas e dramas internos se colocam a frente da missão - transformando a vida pacata dos personagens num turbilhão.


A narrativa, em terceira pessoa, conta a história sob os ponto de vista de quatro personagens: Arthur, Morgana, Durius e Kay - o fiel cavaleiro do Rei Arthur. A história é recheada com a complexidade dos personagens - que chegam a ser reais, palpáveis. As histórias paralelas ao trama central chamam atenção e deixam o mundo presente no conto mais mágico e agradável ao leitor. O personagem de Durius é aquele que mais chama atenção do leitor - se sobrepujando aos demais. A narrativa é simples, de fácil absorção, mas sem perder a grandiosidade. Os diálogo ocorrem com naturalidade e nada é forçado dentro d'A Memória da Espada. O desfecho é mágico. Definitivamente um dos meus favoritos. 

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O Espelho, Liège Báccaro Toledo. Baseado no poema "A Dama de Shallot", O Espelho conta a história da menina Mary que, ao encontrar um antigo espelho no porão de sua casa, vê-se em um mundo mágico cheio de fadas e seres maravilhosos. Tal mundo, porém, torna-se o seu maior pesado ao descobrir sua história e quem lá o habita.

Narrado em primeira pessoa pelo ponto de vista de Mary. A história é incrível, com beleza nos detalhes. A personagem é incrível, cativando logo o leitor, assim como as descrições nos fazem entrar em um pesadelo mágico. 

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Momento Decisivo, Luiz Felipe Vasques & Daniel Bezerra. Momento decisivo é, de longe, o conto mais peculiar de toda a antologia. Sua história ocorre no espaço sideral, onde a humanidade (após várias mudanças genéticas) se espalhou. Várias colônias surgiram, e, consequentemente, a guerra entre elas. O conto mostra a profecia feita por Myrdyn (Merlim) sobre como Arthur, o soberano das colônias, iria trazer paz e união para toda a humanidade. Temos, aqui, toda a história de Lancelot e Guinevere e outras tramas clássicas vista sob um filtro de naves, lasers e prótons. 

A princípio, a proposta assusta o leitor e faz com que um pré-conceito surja: "será que é possível por um conto arturiano em um cenário de ficção científica?  A história é original, não caindo no clichê típico da lenda clássica - claro, temos as guerras, os reinos, etc. Mas o cenário difere muito, e isso contribui para a história e complexidade dos personagens. Há dois pontos de vista aqui, ambos bem trabalhados. As cenas de ação são uma joia descritiva, e tudo isso é feito com um texto de absorção fácil. 

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Cavaleiro Anônimo, André S. Silva. É a história trágica de um menino que sonha em se cavaleiro. Acompanhamos o personagem desde sua infância, quando ajudava o pai a ser lenhador, até os acontecimentos que o fizeram escolher a vocação de cavaleiro. Contra os pais, o menino foge de casa e vai para Camelot, onde consegue alcançar seus objetivos. Porém, a ambição é maior e ele deseja algo mais. Sua vida vira de cabeça para baixo ao mostrar a verdadeira realidade por trás de suas escolhas. 


A trama é simples, mas contém traços que a distinguem de histórias parecidas. O conto é escrito de forma mais crua, verdadeira, trazendo, em sua história, uma linha tênue que parece transcender a ficção. Em primeira pessoa, o protagonista conta a história vista pelo tempo presente - o que pode confundir o leitor algumas vezes, mas nos deixa mais próximos do personagem. 

Acho que os personagens poderiam ser mais trabalhados: as poucas cenas em que temos profundidade são um pouco estreitas, devido ao objetivo que parece ser a base do narrador. 

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Mau Conselho, Pedro Viana. Conta a história clássica de um ponto de vista completamente diferente. No conto de Pedro Viana, o jovem Artur é obrigado a deixar o reino - e então tem de assumir um identidade nova. Vira Mordred, apelido dado por seu mestre; o grande mago Merlim. Quando descobre que seu irmão Geoffrey assume a sua própria identidade, Arthur (agora, Mordred) perde o rumo em meio a sentimentos que podem mudar o destino de todo o reino. Todos os personagens clássicos são reunidos na narrativa: e a trama se prende na visão de Arthur sobre Geoffrey, o amigo Lancelote, Morgana, Merlim, e é claro - a bela Guinevere.

Ótimo conto, com um dos enredos mais originais de toda a coletânea. A narrativa cativa rápido o leitor que, sob o ponto de vista de Mordred, engloba com voracidade o mundo apresentado e as características fortes dos personagens - tamanha a maestria narrativa. O ponto de vista é natural, cabendo perfeitamente ao personagem - quase parece que é o próprio protagonista que descreve todas as cenas, mesmo sendo em terceira pessoa. Os diálogos são naturais e bem colocados, e a leitura não é pesada nem de difícil absorção. Eu adorei cada parte do conto, mesmo.

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Você já sabe o que fazer.


A Solução Final, A. Z. Cordenonsi, conta a história do imperador Arturious, governante da Britonnia. Sob um filtro futurístico, a história é uma reintrodução da lenda clássica. Há uma guerra acontecendo, e, além da batalha iminente, o Imperador tem que se preocupar com boatos sobre o fato de a sua esposa, a Rainha Guinevere e o Cavaleiro das Rosas, Lancelot, estarem juntos. A figura de Morgana aparece como a irmã de Arthur, que é a grã-sacerdotisa e grande espiã do reino. As intrigas surgem em cada linha, fazendo o personagem beirar o desespero.


Narrado em terceira pessoa, a história é boa - mesmo contendo todos os clichês dos contos arturianos, a trama dá reviravoltas que prendem o leitor. Há, porém, ao meu ver, um enorme excesso de informação nas páginas transcorridas - nomes, lugares, datas... que confundem a leitura. Mesmo com uma linguagem não tão rebuscada, a densidade com que as coisas foram comprimidas deixam o texto pesado e tornam a leitura preguiçosa. Em alguns casos, tive que voltar certas páginas para saber quem era tal personagem e por que estava em determinada cena. 

O mundo criado por Cordenonsi é incrível, e os personagens que o compõem poderiam ser melhores trabalhados, mas parece que a grande quantidade de informação deixa a personalidades deles fraca, diante do geral da trama. O final é bom, mas parece chegar de tropeços, sem explicação ou lógica bem trabalhadas. 

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O Herdeiro de Shallot, Ana Cristina Rodrigues. Narra a história de Phelipe, que cresceu em Shallot, sem nunca poder sair das paredes do castelo. Quando mais velho, a sua mãe, então, revela o destino do rapaz e a sua história. Phelipe, ao completar 18 anos, após ser feito cavaleiro, segue para Camelot - onde se encontra completamente sozinho.

A história se trata, basicamente, sobre a questão da transição do paganismo para o cristianismo. O protagonista vê-se em uma rede de poderio comandada pelo Deus único, e jura jamais deixar a fé que lhe acompanha desde o nascimento. Há sensibilidade e beleza no uso das palavras. Os diálogos são ótimos, e os personagens cativam facilmente o leitor. Só achei o ritmo muito rápido, como se houvesse pressa em terminar a história. O final ficou vago, sem deixar tempo para cenas que causem um sentimento de clímax no leitor. Parece que é sempre um jogo de expectativas não saciadas. 

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Era uma vez um elfo encantado que vivia num pé de caqui e sabia que, pra ampliar, tinha que clicar bem aqui. RIMOU EU SOU UM GÊNIO!



A Fada, Marcelo Abreu. Ok, eu amo esse conto, me animei. Somos apresentados aqui a um mundo pós-apocalíptico, com o caos da guerra iminente matando lentamente a esperança do povo. A protagonista, Julia (minha xará, cof cof), mostra então sua "trupe", que, para dar esperanças e força de vontade para o povo vencer a luta, revive as lendas encontradas num antigo livro. Ela encarna o papel de Morgana, uma fada há muito esquecida - e assim os outros vão surgindo, Merlim, Arthur, Mordred... e a lenda revive. Em meio à guerra, como manter as aparências e separar a realidade das histórias perdidas? 

A protagonista é um jubilo aos olhos do leitor - com uma profundidade magnífica, e a escrita transforma a história em um enredo cheio de tramas que prendem a atenção. Diálogos ótimos e ponto de vista muito bem trabalhado, o enredo intriga e encanta na originalidade da história - que nunca perde o ritmo, e mantém o clima de lenda arturiana mesmo no cenário apresentado. As relações dos personagens são muito realistas e profundas. O arco do roteiro segue perfeitamente, dando um final surpreendente e, ao meu olhar, perfeito. Só consigo pensar em elogios para esse conto, sério. 

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O Fio da Espada, Melissa de Sá. Um conto sobre conflitos, lealdade e decepções. Melissa de Sá nos mostra a história de Dainwin, um filho de um nobre com poucas propriedades que sonha em ser cavaleiro. A história mostra sua trajetória como cavaleiro menor até se tornar, devido o seu próprio esforço e força de vontade, escudeiro de sir Lancelot. Tal coisa inquieta-lhe o espírito, pois o Primeiro Cavaleiro é conhecido por não possuir escudeiros. Ao longo da trama, segredos se revelam, e Dainwin se vê perdido em uma questão: a quem ele deve ser fiel?


Possivelmente Dainwin é um dos melhores personagens da coletânea - tão completo em tão poucas páginas, tão real. Sua batalha interior poderia ser adaptada em qualquer situação, e nos identificamos facilmente com o protagonista. A trama é original - principalmente por dar menos destaque aos personagens da corte, que costumam ser o foco geral das lendas arturianas. A narrativa é ótima, também, apesar de que eu tive dificuldade de imaginar uma ou duas cenas. A narrativa em terceira pessoa, sob o olhar de Dainwin só exalta os dons de narrativa de Melissa de Sá, que cria um mundo incrivelmente detalhado e mágico. Um dos melhores contos pra sempre, sério.


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As Mãos Vermelhas de Isolda, Octávio Aragão. Lancelot toma o rumo da história. Ele tem a missão de verificar a morte suspeita de Tristão de Liones. Chegando ao castelo onde morava sir. Tristão, e pede para interrogar sua mulher - Isolda de Blanchemans. As coisas correm diferente do esperado, porém.

Lancelot Du Lac é um personagem que atrai os leitores, querendo ou não. A história, porém, deixa pouco espaço para aprofundamento das características dos personagens que movimentam o conto. As personagens de Isolda (são duas!) parecem robôs que automaticamente respondem às falas para darem continuidade. Mesmo com a narrativa sendo boa, achei que as coisas acontecem realmente muito rápido no conto, causando confusão na trama - nos perdemos diante de tanta informação em pouco espaço. O desfecho é súbito, apressado e a série de acontecimentos que levam a ele são igualmente fracas... é como se o conto narrasse apenas uma cena de 5 minutos, sendo que há mais que isso. 

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A dama da Floresta, Ana Lúcia Merege. Conta a história de uma anciã e o mundo que a cerca. Ela é a "vó" do seu povo, a anciã que sabe os segredos das ervas e suas propriedades, aquela que ajuda as mulheres a terem seus bebês e que reza à noite para os Deuses que vivem escondido nas árvores. A anciã, desde a tenra infância, aprende os segredos da natureza, e convive com segredos obscuros que podem mudar a vida de qualquer um. 

A trama é das mais originais de toda a coletânea: mistura religião, dramas morais e temas diversos e obscuros. Ana Lúcia Merege apresenta os personagens clássicos com os nomes originais das lendas, como Myrdyn para Merlim - o mago que aqui se apresenta um pouco diferente da versão que conhecemos dos contos arturianos. A escrita, em primeira pessoa, deixa um tom onírico no universo apresentado - como se estivéssemos cobertos por brumas que exalam segredos antigos. Sobre segredos é o que aprendemos no conto, a importância vital deles.

A anciã puxa atenção do leitor, com seu ponto de vista maduro e esclarecido, que, mesmo sendo uma figura de "poder" ainda tem espaço para dramas tipicamente humanos, e podemos ver a mudança dos pensamentos dela quando criança e já adulta. Não apenas a única personagem que chama atenção, mas todos os narrados - dando atenção principalmente para Myrdyn e Nimue, a filha da personagem. O arco narrativo é incrível, mostrando claramente uma espécie de linha do tempo, que acompanha a evolução de cada um dos personagens com maestria, dando um movimento fluído à história. Um dos melhores contos, sem dúvidas.



O Rei às Margens do Rio, Cirilo S. Lemos. Ok. Esse conto é doido. Sério. Pirado, doidaço, mas bom pra caramba. O termo dieselpunk é usado para caracterizar o estilo da história, mas eu mal faço ideia do que se trata - pelo que li, é tipo ficção científica passada na década de 30/40 com uma pegada meio futurística. A história é de um menino chamado Levítico que vive no estado do Rio de Janeiro, que tem um cachorro chamado Merlim e uma guerra acontecendo em território brasileiro. Acompanhamos o protagonista por aventuras muito parecidas com viagens-astrais e contextos históricos bacanas que dão um desfecho surpreendente.

Surpreendente é a palavra que se encaixaria melhor no conto. A escrita é ótima, com o tom interiorano típico dos personagens e clima nostálgico, mas também futurístico em certos pontos. O personagem de Levítico é profundo ao extremo, e somos encantados por ele facilmente, assim como compreendemos a sua visão de coisas como o mundo e a sua família.

Diálogos muito perfeitos, naturais e realistas dão vida aos personagens. O cenário é muito bem escrito, e sentimo-nos facilmente presos ao conto, dentro da narrativa. Com conflitos interessantes e trama extremamente madura, o final é incrível - dando um clima totalmente diferente, um desfecho surpreendente ao conto. Muito bom, mesmo.



No geral, Excalibur é uma daquelas coletâneas para a vida toda. Quem não gosta de lendas arturianas? Todos amam! São elas que inspiram as mais diversas histórias, e elas
que são um dos maiores mistérios da humanidade. Eu acredito fielmente em personagens como Merlim e Morgana, em guerreiros como Lancelot, e rainhas lindas feito Guinevere. Os 12 contos aqui escritos são histórias originais que renovam o mito, dão um novo ar aos magos e reis, polem as espadas e amassam os escudos com pancadas de criatividade. O livro é um ótimo não apenas no seu conteúdo, mas na produção.

A capa é divina, o papel é resistente e o livro tem uma qualidade incrível - garantindo uma boa sobrevivência por anos. Eu abri o meu muitas vezes, e não há sinal algum de decomposição. O livro é baseado em vitrais medievais, e temos a impressão de estarmos tocando um livro antigo, medieval. Excalibur é uma viagem ao passado da humanidade, somos convidamos para conhecer terra distantes (ou não), com mágica e guerra em cada canto. Viramos reis, magos, guerreiros e até mesmo as próprias espadas e os lugares que cercam tais personagens. Viramos uma lenda.


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