Entrevista exclusiva com Ana Lúcia Merege

By | terça-feira, março 11, 2014 Leave a Comment

Entrevistamos a autora da série "O Castelo das Águias" e organizadora de "Excalibur", dois livros já comentados aqui antes, além de organizar livros como "Meu Amor é um Sobrevivente" e "Bestiário" e ser autora de "O Caçador". Ana revela os segredos de seu mundo mágico e fala um pouco de sua vida e profissão. Após o pulo, conheçam um pouco mais da obra e vida dessa maravilhosa escritora!




1 - Em O Castelo das Águias, o leitor conhece Athelgard, o mundo mágico que cerca Anna, a protagonista. Não apenas nesse livro, mas em diversos contos espalhados no blog do livro, em e-books e até antologias, nos damos por conta da magnitude dessas terras mágicas. De onde surgiu a inspiração para esse lugar? O que é Athelgard?

R: Athelgard se construiu aos poucos a partir das várias cidades, florestas, territórios em que se passavam minhas histórias. A tribo da Anna por exemplo existiu antes de Athelgard, assim como Pwilrie, a terra do Cyprien. Como eu sempre gostei de fazer os personagens das histórias se encontrarem, acabei juntando todos eles na ilha, que é uma espécie de continente único desse mundo fantástico (até onde se sabe). Para isso, tive que tornar o universo coerente - e daí foi surgindo a mitologia, a ideia da origem comum, algumas respostas para haver povos e culturas diferentes.

2 - E a religião? Como ela é no universo de O Castelo das Águias?

R: Os elfos brilhantes acreditam em algo além da matéria e acreditam em Magia, mas não em divindades. Os magos humanos costumam ser assim também, mas há exceções como o Padraig, que é devoto de Thonarr. Este, assim como Woden, Aegir e outros, é um dos Heróis cultuados pelos homens, em quase toda a ilha, desde o início, mas há alguns séculos surgiu uma religião monoteísta (o Templo) que afirma haver um Deus que é como se fosse um "superior" desses Heróis; não os renega, pelo contrário, mas os coloca mais ou menos na posição em que estão os santos cristãos, intervindo em alguns casos mas subordinados a esse poder maior. E tem as tribos de elfos, que seguem mais o modelo xamânico.

Capa do segundo livro da série,
 já em pré-venda aqui.
3 - O Castelo das Águias é um livro que mostra, em um de seus vários contextos, uma ideologia feminista. Há machismo em Athelgard, mas, em até que ponto ele existe? Vemos que esse assunto é tratado com certa sutileza e cuidado. Qual o motivo de inserir esse assunto no romance? Você se consideraria feminista?
R: Sim, me considero, mas não afirmo isso a todo momento. Acho que a preocupação com a igualdade entre sexos, os direitos humanos, a liberdade individual, tudo isso transparece em meus livros de várias formas, e pretendo que leve os leitores a refletirem, mas não de forma panfletária nem didática (não esquecendo que escrevo para um público mais novo). Meus personagens (os heróis) se posicionam claramente contra a violência, mas tenho a preocupação de fazê-los coerentes com seu tempo e situação. Por exemplo, o Kieran abomina quem bate numa mulher, mas acha natural que, como homem, seja ele a dar a última palavra no casamento. E a Anna, que cresceu com elfos (os quais praticam a igualdade entre sexos) , responde que ela pode ouvir as razões dele, mas não tem que obedecê-lo. Tudo de forma que considero coerente com o cenário e com as personalidades de ambos. 

4 – O Castelo das Águias, cenário que dá nome ao primeiro livro, é um lugar cheio de magia e mistério, e os professores da escola são bastante característicos, sem contar com as suas matérias – que incluem até música. Fica claro que todos são complexos e cada um tem um papel importante na trama. Existem planos de escrever sobre alguns desses personagens secundários?

R: Sim, o Urien já protagoniza um conto disponível na Amazon (Um Estranho Equinócio) e com o tempo alguns dos outros devem aparecer em spinoffs também. Rydel terá papel de destaque, pois através dele quero trabalhar com a questão da homoafetividade, um tema que acho muito importante e acabou ficando de fora do primeiro livro. E a Lara será mostrada no passado, ao longo do seu casamento com Hillias, um tema que voltará a aparecer no terceiro livro da saga.

Outro personagem de destaque, embora não seja professor, é o Conselheiro Thorold, cuja história pregressa está na novela Saga de Thorold, disponível em e-book na Amazon.com.br.

5 – Quando você decidiu virar escritora?

R: Sempre quis, desde que me entendo por gente, mas acho que a ideia de me profissionalizar surgiu por volta de 1995, quando finalmente concluí meu primeiro livro (a primeira versão de O Caçador, hoje publicado pela Franco Editora). Hoje é uma carreira paralela - trabalho na Biblioteca Nacional - mas, depois que me aposentar, pretendo me dedicar com ainda mais afinco, além de retomar as atividades de mediação de leitura e contação de histórias que são outra grande paixão.

6 – Quais projetos se seguem depois da publicação do primeiro livro?

R: livros, novos contos... O próximo romance da série que começou com O Castelo das Águias deve sair lá para 2016.

7 – Se pudesse tornar um personagem de O Castelo das Águias em uma pessoa real, qual seria? E por que?

Seria a Anna de Bryke, acho uma personagem muito legal e que tem muito ainda para crescer - e para partilhar em termos de histórias, conhecimentos e boas mensagens.

8 - Você organizou coletâneas de contos em projetos como Excalibur (Draco) e Bestiário (Ornitorrinco), ambos com uma qualidade, na minha opinião, muito boa. Com é, para você, trabalhar com isso? Há algo além da escrita que te motiva? Existem mais projetos do tipo previstos?

R: Eu gostei muito da experiência de organizar coletâneas. Uma diferença importante entre os Bestiários e Excalibur (e Meu Amor é um Sobrevivente, que venho de organizar), é que as duas primeiras tinham autores convidados e temas previamente combinados (cada autor falava de uma criatura fantástica), então eu e a Ana Cristina Rodrigues não tivemos problema com repetição de temas e garantimos de antemão a qualidade, tendo que interferir muito pouco nos contos (porque sempre se pode sugerir uma alteração para melhor, mesmo com textos e escritores excelentes). Já nas duas da Draco, foi preciso escolher dentro do que recebemos, não apenas os contos mais bem escritos e originais, mas também aqueles que formassem juntos um livro bem equilibrado e harmonioso. Em Excalibur eu tive muitos contos sobre Lancelote, mas a variedade de gêneros e enfoques deu uma compensada na repetição do tema. Em Sobrevivente, eu e Janaína Chervezan pusemos mais contos de zumbis do que gostaríamos, mas mesmo assim creio que chegamos a um bom resultado. Acho que um bom organizador se preocupa fundamentalmente com esse equilíbrio, com fornecer variações aprazíveis sobre o mesmo tema, com alternar contos mais ágeis e outros narrativos. Não que os bons textos não sejam fundamentais, claro que são, e nesse ponto sempre tive sorte, mas a organização vai além de escolher os melhores - e passa, necessariamente, por saber como trabalhar com aquilo que se recebe.

9 - Em Excalibur seu conto se destaca por não manter a linha narrativa e dos fatos focada na história do rei Arthur, guerras ou intrigas políticas. "A Dama da Floresta" é mais sutil, com um toque onírico. Em um clima mágico e cheio de mistérios, vemos um lado diferente das lendas apresentadas normalmente. Como foi escrever esse conto? 

R: É comum da editora Draco postarmos sobre a construção de nossos textos em seu blog. Você pode ler sobre esse conto específico nesse link.

10 – Nós sabemos que você é bibliotecária. Quais livros foram as maiores inspirações para sua história?

Embora meu livro preferido seja "A História Sem Fim", de Michael Ende, acho que foi a série "Earthsea", da Ursula le Guin, que forneceu mais inspiração para essa série do Castelo. A HQ "Elfquest", de Wendy e Richard Pini, também. Por fim, "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley, pela ambientação e por algumas situações.

11 – O que você acha do avanço da literatura fantástica no mercado brasileiro?

R: Só posso achar ótimo e torcer para que conquistemos mais espaço e novos leitores que não sejam sempre os mesmos do fandom (grupo de pessoas que gosta de fantasia e ficção científica). E acho que a litfan voltada para crianças e jovens pode ter um papel importantíssimo nisso, pois as escolas, no Brasil, são o lugar onde mais circulam livros e se dissemina literatura.

12 – O que você deixa de dica para aqueles que querem ser escritores? 

R: Que leiam o mais que puderem, gêneros variados; que escrevam o tipo de história que gostam de ler; que revisem, reescrevam, pesquisem, estudem; que se orgulhem do que fazem, mas sejam humildes ao reconhecer erros e problemas; que saibam lidar com críticas e rejeições e sejam educados se tiverem de rebater alguma mais ofensiva (pois há uma grande diferença entre criticar e ofender, e aceitar crítica não é o mesmo que engolir sapo!); que tenham uma boa noção de como se dirigir a leitores críticos e editores; que não desistam, mesmo que ouçam muito não, pois ninguém é dono da verdade nem pode gostar de tudo; por fim, e que se divirtam, pois a gente rala tanto para conseguir terminar os textos que é preciso contrabalançar isso com muito prazer e alegria na hora em que os escrevemos! :)

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