Dupla Falta - Lionel Shriver, por Trinta.

By | sábado, abril 05, 2014 Leave a Comment
 

Qualquer pessoa que acompanha os meus posts com uma mínima assiduidade sabe que eu sou um puxa-saco enrustido de Lionel Shriver. Digo isso porque este já é o terceiro livro da autora que apresento no Escolhendo Livros e, como se ainda houvesse dúvidas da minha parte, Dupla Falta foi mais um tapa na cara que eu não me arrependo de ter levado (e admito que estou escrevendo isto com um sorrisinho sacana de um típico fã orgulhoso estampado no rosto). Da primeira vez, foi a ousadia macabra de Precisamos Falar Sobre o Kevin que me deixou embasbacado; na segunda, o irônico poder das tomadas de decisão recorrentes na vida, descrito acidamente em O Mundo-Pós Aniversário; agora, Dupla Falta coloca em foco uma das facetas mais mesquinhas e nauseantes que o ser humano tem a coragem de possuir.... Talvez este tenha sido o livro de Shriver mais difícil de tragar.

Sets, games, aces e match points. Para a ambiciosa Wilhemena "Willy" Novinsky, não há linguagem mais sedutora do que a presente em uma boa partida de tênis. Como uma jogadora profissional, Willy dedica todas as suas forças a alcançar o famoso ranking dos 100 melhores da elite tenista, um objetivo que moldou as suas escolhas de vida desde que descobriu o seu maior sonho quando ainda jogava descompromissadamente no quintal de casa. Mas quando conhece Eric Oberdorf, Willy mal pode acreditar que exista um homem mais adequado para compartilhar o seu estilo de vida. Eric é um charmoso aspirante a tenista profissional, embalado com a inteligência aguçada de um recém-formado em Matemática. Se o tênis já não preenchesse o cargo, Eric provavelmente seria a sua alma gêmea. No entanto, Eric logo começa a mostrar que a sua habilidade está muito acima do esperado... Poderia um relacionamento sobreviver a pura e simples competição de egos?

Ler Dupla Falta foi uma experiência angustiante. Irritante. Talvez até desgostosa em alguns momentos. Digo isto porque eu me senti incrivelmente afastado da senhorita Novinsky, que simplesmente é uma mulher metida a besta demais pro meu gosto (pronto, falei!). No entanto, a minha falta de identificação com os sentimentos da personagem não é exatamente um ponto negativo; apesar do meu desgosto com a atitude egocêntrica e os insuportáveis mimimis que aparecem aqui e ali (Eric não é uma das pessoas agradáveis de se lidar com a sua necessidade em ser bom em tudo, mas há horas que você não a-g-u-e-n-t-a mais os ataques de estrelismo de Willy!), a protagonista consegue ser interessante, até pela próprio impacto de suas reações diante dos problemas que enfrenta durante as reviravoltas da trama. Só para você ter uma ideia, vamos colocar as coisas em outra perspectiva:

"O seu sonho é ser uma tenista. Desde os seis anos de idade, você treina todos os dias incansavelmente para um dia ser a melhor atleta possível, apesar das inúmeras barreiras no caminho. E os obstáculos não são poucos: Seus pais sempre foram contra, a concorrência é alta e o campo profissional esportivo ainda é entupido de machismo. Mas você consegue se destacar a ponto de entrar em uma escola de prestígio através de uma bolsa (!) e ainda com o auxílio especializado de um dos melhores treinador na área (!!). Ai quando você decide aliviar a pressão, deixa o mundo do jogo pela primeira vez e se permite tentar o amor para variar... Este alguém cresce ao seu lado e começa a se tornar.... Melhor que você."

Com certeza, isto é, no mínimo, frustrante.

Através deste exercício de "colocar sob perspectiva", até consigo entender um pouco mais da visão da personagem. Mesmo sendo difícil admitir o quanto todos nós somos um pouco egoístas quando se fala em perseguir os nossos maiores sonhos, dar a chance para uma leitura deste tipo ajuda, e MUITO, em aceitar a ideia de que sim, nós também somos uma Willy de vez em quando (ok, algumas pessoas são com mais frequência, HAHA). Por isto, mesmo que não seja o livro mais impactante da autora, Dupla Falta nos satisfaz com mais uma história corrosiva que provavelmente não vai sair da sua cabeça por um bom tempo. Deus sabe que até o meu namorado ficou chocado quando eu contei o final pra ele...

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