A Ilha dos Ossos - Ana Lúcia Merege, por Julio.

By | segunda-feira, junho 09, 2014 Leave a Comment
Atenção, marujos! Icem as velas e preparem-se para qualquer coisa! Os mares de Athelgard são belos, mas traiçoeiros.


fonte // eles são gatinhos né? 
O segundo livro da saga iniciada com o O Castelo das Águias tem como protagonista o mago Kieran de Scyllix, atual marido de Anna de Bryke. Tudo começa quando Anna recebe um convite para um evento da Confraria do Ganso, um prestigiado grupo de nobres bardos do Norte de Athelgard que ficou interessado na jovem Mestra de Sagas. Decidida a aceitar a rara proposta, Anna embarca para sua nova aventura. Porém, tudo vira do avesso e Kieran é obrigado a embarcar nas águas de Athelgard, entrando em aventuras memoráveis, encontrando aliados improváveis e segredos tão antigos quanto as histórias contadas pelo vento.

Kieran chama a atenção do leitor desde a primeira frase. Sua personalidade é completamente diferente da de Anna de Bryke: enquanto a Mestra de Sagas é otimista e sonhadora, Kieran de Scyllix é sombrio e fechado. Sua vivência no mundo deu a ele uma visão realista das coisas (além de um pouco macabra). Desde o começo, o protagonista refere a si mesmo como alguém capaz de cometer maldades, mas isso não o torna um vilão. No primeiro livro, Anna o descreve de forma totalmente apaixonada - enquanto agora, ele é frio em relação a si mesmo: aponta suas próprias falhas, não para julgar-se, mas para mostrar que não é perfeito.

Ana Lúcia Merege mostrou maestria ao deixar "pingos" do passado do mago durante a sua narrativa em primeira pessoa. Kieran casualmente diz coisas como "fui capaz disso" e "já fiz aquilo", mas como algo passageiro, que não é do interesse geral: o foco deve estar na história que ele conta. Isso apenas apetece o leitor, que fica cada vez mais curioso para conhecer o personagem. Somos feitos dos olhos do mago, e isso é uma experiência encantadora, assustadora, um pouco triste, mas intensa ao extremo.




Kieran ao longo da história vai passando por diversos cenários e encontra vários outros figuras que servem como seus companheiros. Os personagens que aparecem são capazes de sustentar suas próprias histórias, deixando A Ilha dos Ossos mais realista. Somos, por exemplo, em determinado ponto do livro, apresentados a Ilya e seu filho Yegor, dois barqueiros que acompanham Kieran por um tempo. Eu simplesmente me apaixonei pelos dois - tão profundos que eram! E não apenas esses, o livro possui uma dezena de outros personagens completamente bem estruturados: como a figura de Stávro, o saltimbanco que derrete o coração do leitor, ou o Insaciável, que congela a alma. E, tendo um protagonista tão bom, não poderíamos esperar menos do antagonista, que me cativou completamente.

Os diálogos são naturais  e complementam ainda mais os personagens apresentados. Pelas falas e expressões descritas, temos cenas de comédia em ambientes completamente inesperados e situações improváveis acontecem a todo instante.

A história é cheia de reviravoltas que tiram o fôlego do leitor a cada instante - o ritmo é ótimo, quase como o de um filme de ação. O roteiro dá curvas que nos deixam completamente pirados. Além disso, todo o arco de acontecimentos presentes em A Ilha dos Ossos está detalhadamente relacionado ao que rolou no ótimo O Castelo das Águias. Ana Lúcia Merege é mestra em criar desfechos impressionantes, e quem já soube disso pelo primeiro livro da saga, vai apenas assinar abaixo da minha afirmação.

É impossível falar de A Ilha dos Ossos sem falar de O Castelo das Águias. Tanto no primeiro, quanto no segundo volume, o leitor poderá ter vários tipos de interpretações da história: pois elas aguentam vários níveis de leitura. "Superficialmente", ambos os livros nos darão ótimas histórias que nos divertirão e emocionarão ao extremo. Porém, podemos nos aprofundar ainda mais: em O Castelo tivemos uma mensagem de espiritualidade e até mesmo meio ambiente; o livro também de certa forma mostrava a parte boazinha de Athelgard. Em A Ilha dos Ossos, somos alertados para os perigos que existem no mundo - e aqui entra a parte que nos fala que ninguém pode ser taxado de cara como bom ou mau, mas que devemos ter consciência de que ambas as qualidades existem - e que, às vezes, é bom desconfiar de algumas coisas.

A Ilha dos Ossos cumpriu seu papel: nos mostrou que Athelgard é maior do que pensávamos, e não tão bonzinho e colorido não. Personagens complexos e bem montados aliados à uma história coerente colocados em um ritmo cheio de aventuras sem fim, essa é a receita para a qualidade aqui apresentada. Somos pegos de surpresa, e temos a impressão de que passamos todo o tempo de leitura em mar aberto, sem saber o que pode acontecer.

O livro é ótimo, não apenas em qualidade de texto e história (que são arrebatadores), mas também em sua qualidade. A capa é muito bem desenhada, e ele é impresso em um papel resistente e bonito, além da ótima diagramação.

Essa é, assim como Castelo, uma leitura que ninguém se arrependerá. Athelgard se funda sob os pilares da literatura nacional, e se edifica cada vez mais nas mentes dos leitores ávidos, que, animados, descobrem que tudo é possível, e navegam na imaginação através dessas páginas de emoção e aventura.





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