Resenha: Ordem - Hugh Howey

By | quarta-feira, julho 15, 2015 Leave a Comment
Dando sequência ao futuro subterrâneo da saga Silo, Ordem volta no tempo em busca de respostas


Eu admito: sou meio verme quando o assunto é “fim do mundo”. Logo, essa onda de romance distópico é claramente uma moda que eu gostaria que não fosse passageira. Ainda assim, Ordem, segundo livro da trilogia Silo, possui uma característica que logo de cara achei audaciosa: não há causa mais palpável para o fim do mundo do que a estupidez (tem outras palavras melhores, mas enfim...) do homem. E a utilização da raça humana como inimiga de si mesma dá pano na manga para muitos questionamentos interessantes durante toda a leitura.

Mas antes de começar a resenha, um aviso importantíssimo: eu não li Silo; a minha entrada na série foi através de Ordem. Porém, entretanto, todavia, mesmo eu não tendo lido Silo, fiz uma pesquisa prévia sobre o primeiro livro e descobri que, na verdade, o segundo romance narra os acontecimentos anteriores a trama do primeiro.

Além disso, quando eu comecei a ler Ordem, percebi que ele não possuía exatamente um personagem principal, mas sim uma série de protagonistas que vivem suas próprias histórias dentro de um abrigo subterrâneo, e para mim, o minuto que eu comecei a ler o livro como se fosse uma“antologia de contos”, consegui tirar bem mais proveito do ritmo compassado do autor Hugh Howey. Mas essa foi a minha experiência, claro.

Uma leve representação dos níveis subterrâneos dos silos.
Ordem começa no ano de 2049, antes da construção dos silos. Somos apresentados a Donald Keene, um deputado da Geórgia formado em arquitetura que é convidado pelo senador de seu estado, Paul Thurman, a participar de um projeto de construção de extremo sigilo. A ideia em si parece absurda; um prédio subterrâneo que aparentemente não teria nenhum uso imediato.

Obviamente, Donald estranha o pedido do senador; não apenas ele não entende o porquê do investimento como também não se julga apto para o trabalho. Mas como sua carreira política ainda não havia tido nenhum impacto substancial, ele acaba aceitando com o intuito de fazer deste o projeto de sua vida. Mal sabe ele a importância que essa escolha terá não só para si como para todo o mundo.

Como disse anteriormente, o livro não se limita a narrar a história de Donald. Também conhecemos a história de Troy, um misterioso homem que começa o seu primeiro turno no Silo 1, Mission, um jovem portador (uma espécie de “carteiro” responsável por levar todo tipo de mercadoria, incluindo, cadáveres, entre os diferentes níveis do Silo) que descobre que um de seus colegas de trabalho está correndo risco de vida e Jimmy, um adolescente que precisará se segurar em seus instintos após um grande acidente acontecer no seu Silo de origem (estou tentando ao máximo não soltar um spoiler, viu?). As várias linhas narrativas do livro se entrelaçam a todo momento, tendo capítulos dedicados exclusivamente para os diferentes personagens de uma forma ~quase~ independente.

Eu digo “quase independente” porque apesar da narrativa de cada personagem ter a sua própria linha de tempo, as histórias ainda sim se comunicam o tempo todo. E para mim, um dos problemas do livro é a forma como essa conexão é trabalhada. Durante boa parte da leitura, elas não conseguem ser claras o suficiente, a ponto do leitor se sentir perdido, sem entender a relação entre os personagens. Inúmeras vezes, me vi demorando para “sacar” que determinada ação de uma pessoa em uma das linhas narrativas era causa/motivo/razão de determinado ponto da outra história ter acontecido. Felizmente, esse sentimento diminui no decorrer do livro, quando as intenções da trama começaram a ficar mais visíveis (e no final, você praticamente leva um tapa na cara com a conexão fantástica feita pelo autor com o enredo do primeiro livro!).

Por outro lado, um ponto positivo que notei de cara em Ordem é como os personagens possuem verossimilhança com o universo pós-apocalíptico. Para mim, não há nada que mais grita “estou-vivendo-no-fim-do-mundo” do que a apatia. A falta de esperança é a primeira coisa que sempre me vem a cabeça quando me imagino em uma situação como essa e me surpreendi como o livro abraçou a ideia durante toda a trama. Diferente de títulos como The Hunger Games e The Walking Dead que possuem um foco muito mais na ação, na luta pela sobrevivência, Ordem focaliza sua narrativa no jogo de conflitos internos dos sobreviventes. Para aqueles que procuram há tempos uma distopia mais dramática, Ordem definitivamente é uma leitura a se indicar.
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