Resenha: Aniquilação - Jeff Vandermeer

By | segunda-feira, setembro 28, 2015 Leave a Comment
Uma aventura paisagística para um lugar tão belo quanto aterrorizante

Já faz algum tempo que eu estava procurando uma leitura com uma pegada de terror. Para vocês terem uma noção, o último do gênero que terminei foi Carrie, a Estranha lá no final de 2012,  por sinal uma leitura que eu gostei muito. Aniquilação, no entanto, diferencia-se bastante do livro de estréia de Stephen King: é um híbrido de ficção científica com terror sobre uma expedição de reconhecimento para um lugar repleto de paisagens naturais, espécies raras e mistérios sem solução. Escrito em forma de diário de viagem, a obra de Jeff Vandermeer nos seduz em uma narrativa sensitiva, em que cada página virada evoca aquela sensação provocante de estranhamento que os acadêmicos costumam associar a uma nova descoberta.  Sim, esse livro é um convite para o explorador dentro de nós.

O livro é narrado por uma bióloga integrante do décimo segundo grupo de expedição a Área X, uma espécie de reserva ambiental isolada da presença humana.  É um lugar tomado pela natureza, em que todos os grupos que passaram por ali ou morreram em situações inexplicadas ou voltaram com sérios problemas psicológicos. Não se engane no entanto: dentro da Área X, há diversos sinais e pistas deixados pelas expedições anteriores, com pistas do que realmente aconteceu ali dentro. O grupo de exploradores abordado pelo livro é composto apenas por mulheres: uma antropóloga, uma topógrafa, uma psicóloga -  a líder da missão - e a bióloga.

Fonte: Página oficial do livro no Goodreads
A última, como narradora dos fatos, nos guia por essa estranha aventura com uma visão clínica de tudo aquilo que acontece; uma verossimilhança notável se considerarmos o perfil de uma profissional curiosa e metódica. Apesar do desejo de descobrir os mistérios da Área X ser um fator importante no perfil da personagem, a bióloga também guarda um grande segredo em relação as suas reais intenções ali: seu marido foi um integrante da última expedição, e quando voltou, não era mais a pessoa expansiva e carismática por quem ela havia se apaixonado. A saga pessoal da protagonista faz com que o livro não caia no que, para mim, é o maior problema de histórias de terror: a sensação vazia de que os personagens estão ali apenas para serem vítimas de um evento aterrorizante, sem nenhum passado ou construção de caráter que os torne minimamente verossímeis/identificáveis para o leitor. Isso transforma Aniquilação não apenas em um livro de aventuras fantásticas, mas também em uma grande viagem de autodescoberta. 

O livro em si é bastante descritivo: a bióloga consegue ilustrar a natureza selvagem contida na Área X em seus relatos e apesar da escrita do autor ser um tanto convoluta (algo que parece ser proposital devido aos efeitos que o lugar começa a ter na narradora), imaginei com facilidade as belezas exóticas presenciadas pela personagem. Ao dar uma pesquisada sobre a obra, vi que ela é caracterizado como new weird, um subgênero que reutiliza elementos da fantasia para criar histórias desconfortantes e estranhas, normalmente misturando fantasia, ficção científica e terror sobrenatural. Posso falar que desconforto é uma palavra que definitivamente caracteriza a leitura, e a forma como as descrições são tecidas pela bióloga é um dos principais motivos desse sentimento angustiante, em um mix da precisão da ciência com o absurdo da fantasia. 

Falando um pouco do fator terror do livro, Aniquilação não decepciona. Mortes bizarras e com bastante gore, situações nojentas e estranhas e uma série de personagens desconfiados um do outro tornam a história um conto de terror muito interessante. Em nenhum momento senti que sabia o que ia acontecer (sério!) e todas as situações escabrosas que apareciam pela frente surtiam como um verdadeiro soco no estômago, daqueles que giram a mão no final para retorcer os órgãos internos. O desenvolvimento da trama vai caminhando em direção ao meu maior medo: o de solidão. E talvez uma das decisões mais acertadas pelo autor foi tornar a bióloga uma pessoa que gosta de ficar sozinha. Tudo pareceu muito diferente sob essa perspectiva. 

Para quem ficou curioso com o new weird, recomendo pesquisar um pouco sobre o Jeff Vandermeer e, sem sombra de dúvidas, dar uma chance a Aniquilação. Já leu o livro e quer deixar sua opinião aqui? Discorda da resenha e achou o livro uma grande bosta? Fique à vontade para comentar e debater com a gente sobre essa obra tão peculiar.
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