Resenha: Os Filhos de Anansi - Neil Gaiman

By | quarta-feira, novembro 04, 2015 Leave a Comment
Um dos maiores sucessos do fantástico Neil Gaiman em uma edição bonita e bem-trabalhada






Charlie Nancy tem uma vida pacata e um emprego entediante em Londres. A pedido da noiva, ele concorda em convidar o pai para seu casamento e fazer disso uma tentativa de reaproximação, já que há vinte anos os dois não se falam. Enquanto isso, no palco de um karaokê na Flórida, o pai de Charlie tem um ataque cardíaco fulminante. A viagem de Charlie até os Estados Unidos para o funeral acaba se tornando a jornada de uma nova vida. Charlie não tinha ideia de que o pai era um deus. Menos ainda de que ele próprio tinha um irmão. Agora sua vida vai ficar mais interessante... e bem mais perigosa. Embrenhando-se no território de lendas e deuses pagãos, a poderosa narrativa de Neil Gaiman leva o leitor a mergulhar nessa história fantástica e bem-humorada sobre relações familiares, profecias terríveis, divindades vingativas e aves muito malignas.

Neil Gaiman sabe usar as palavras de um jeito único. Já na primeira frase do livro (e no título do primeiro capítulo), chama o leitor, instigando-o para a leitura. Isso, junto dos personagens marcantes, torna a leitura realmente gostosa. Gosto muito do clima que o livro encadeia, da forma que Gaiman mistura o mundo real com o mitológico, dando pitacos ao leitor, provocando ele a tentar adivinhar em que realidade o protagonista se apresenta. A mitologia é apresentada como uma espécie de sátira, dando um tom engraçado à escrita. O mundo é bem marcado, descrevendo os cenários sem exagerar mas também sem deixar nada para o leitor fazer sozinho. Gaiman cumpre seu papel.

Os personagens são bem estruturados, mas sinto que, em alguns casos, se tornaram um pouco caricaturizados, como os típicos personagens de Tim Burton, que se tornam descritíveis apenas pelos aspectos únicos demonstrados ao longo de seus filmes. Porém isso não serve para todos, é claro. O protagonista e seu irmão, Spider, são muito bem feitos, completos e intrigantes.

A escrita possui um ritmo marcado, bem estruturado, sendo detalhista onde precisa e sem haver nenhum momento onde a história torna-se cansativa e prolixa. Um dos problemas que mais encontro nas minhas leituras é a questão do ritmo. Geralmente (principalmente quando o autor é iniciante), em algum momento, o ritmo de escrita e/ou da história começa a se tornar mais instáveis. Por exemplo: em alguns livros, os capítulos começam contendo de três a cinco páginas, e, mais para o meio, como que se o autor percebesse que tal coisa poderia se tornar cansativa para o leitor, os capítulos (e parágrafos e frases) passam a se tornarem curtos, dando uma sensação de pressa para quem lê. Neil Gaiman, porém, sabe o que faz. Sua escrita flui em frases curtas, médias e longas - além de pequenas cenas que dão um "respiro" ao leitor. Mais ou menos na metade do livro, quando a ação passa a tomar conta da maioria das cenas, o ritmo se torna mais acelerado, instável - porém não de forma caótica, que faça o leitor se perder, a cronologia, a sucessão de fatos, é extremamente lógica e dá sensação de que somos o próprio narrador, ao acompanharmos as cenas sem surpresas ou digressões.

Filhos de Anansi traz uma leitura leve, mas que provoca sentimentos intensos para o leitor que busca se entreter com algum livro bacana. A história não é complicada nem cansativa, fazendo o livro ser lido tranquilamente, e os personagens possuem vários pontos de conexão com o leitor, assim como a própria narração - que dá "pitacos" que servem como ganchos de interesse para nós. De forma maestral, Neil Gaiman tramita entre o drama e a comédia, fazendo o seu mundo um local aterrorizante, mas, ao mesmo tempo, extremamente cativante. Eu realmente recomendo a todos.
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