Resenha: Loney - Andrew Michael Hurley

By | quarta-feira, agosto 10, 2016 Leave a Comment
Uma maravilhosa leitura sofrida para todos

Sim, amados leitores, sofrimento é o sentimento que esse livro passa. E de muitas formas. Lembram quando falei de Will & Will? Que ele vendia uma ideia com a capa mas quando você lia o livro era outra coisa completamente diferente? Pois bem, esse aqui também te engana. O tempo todo. A ponto de você não conseguir acreditar em mais nada. Na vida. Fim.

E pra quem ficou ilhado num banco de areia, sem ver nada além de água, e não sabe quem é Andrew Michael Hurley... bem, não perdeu nada, porque ele não era lá grandes coisa, pelo menos não no meio literário (talvez fosse alguma coisa no mercado panificador, mas vai saber). Ele tinha escrito uns continhos em 2006 e 2008 mas Loney foi seu título de estréia. E que estréia.

Loney conta a história, principalmente de um lugar. Sim, nós temos personagens, temos uma história que na verdade é um flashback gigante, temos lampejos do presente mas, no geral, é sobre um lugar, num buraco qualquer no noroeste da Inglaterra. Mas quando eu digo história não falo de acontecimentos históricos e marcos de desenvolvimento. Mas como esse pequeno espaço de lugar nenhum pode mudar e controlar a vida das pessoas que o habitam. Seja através de fenômenos naturais incomuns ou crendices locais.

O livro é montado como se o protagonista estivesse escrevendo um diário de memórias. Mas ele não o está fazendo por prazer, mas para um fim específico (que não vou dizer pra não dar spoiler). Essas memórias ocupam a maior parte do livro, contando um acontecimento de sua adolescência, quando ele, com 15 anos, seu irmão mudo, seu pai banana e sua mãe fanática religiosa, junto com dois casais de amigos e um padre, vão fazer seu retiro anual de Páscoa no Loney. Porém, o que era pra ser mais uma viagem tranquila do grupo, se torna um desastre. In a way...

Que acolhedor...
Eu não vou falar mais nada da história porque qualquer coisa que eu disser vai atrapalhar a experiência. Então vamos falar de outras coisas. Como por exemplo das mudanças de posição na linha tempo. Sim, no decorrer do livro, isso acontece muito. Lembra que ele é montado como se o protagonista estivesse escrevendo suas memórias mas também, de vez em quando, ele recorda fatos bem mais recentes que ajudam (ou não) no entendimento geral da trama. E vou te falar, como essas passagens são bem costuradas. O escritor não faz da forma preguiçosa, ele insere passagens do presente no meio do capitulo e depois volta pro passado e você não se perde em nenhum momento. E às vezes ele volta mais ainda no tempo, sempre que for necessário um conhecimento extra para compreensão geral do cenário.

Cenário esse que é descrito com detalhes incríveis e (felizmente) sem ser massante. A cada passada de página, o lugar te oprime um pouco mais com seus mistérios indecifráveis somados aos medos e inseguranças de uma mente adolescente e quando você chega no fim do livro, a pressão é quase insuportável. E você NUNCA sabe porque isso acontece. No Loney, você nunca tem certeza de nada que você vê, ouve ou sente. Ou lê.

Esse livro te fisga usando a técnica Agatha Christie "Foi o mordomo... não, pera...", só que elevada ao cubo. Você nunca sabe o que realmente está acontecendo. A todo momento o texto te guia para uma conclusão de um dos mistérios para logo depois deixar você boiando em dúvidas de novo. E no fim? Bem, lhe adianto que o final do livro pode ser comparado ao melhor final da melhor temporada de Lost, onde você ficou ainda cheio de perguntas não respondidas. Mas, e daí? Contanto que o caminho tenha sido prazeroso, quem se importa com conclusões? E mesmo que você se importe, fique calmo. Cada personagem fecha seu ciclo antes do fim e as dúvidas que ficaram são um divertido jogo de imaginação que você vai brincar sozinho por semanas a fio tentando dar uma solução. E você vai conseguir. Mas vai se sentir bem com isso mesmo assim.


O BOM:
  • Atmosfera opressiva digna de prêmio.
  • Questionamentos existenciais, sobre a própria fé e sobre loucura são cuidadosamente inseridos na trama dando mais profundidade a todos os personagens.
  • Costura entre passagens de tempo quase invisível.
  • Personagens incrivelmente bem desenvolvidos e cativantes (alguns, pelos menos).
  • Conclusões que vem e vão com a mesma facilidade deixando você agarrado no livro querendo saber mais.
O RUIM:
  • Tem fim. E você morre querendo o 2.


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