Resenha: Faca de Água - Paolo Bacigalupi

By | sexta-feira, janeiro 13, 2017 Leave a Comment
Badtrip da secura...

Se você está querendo ler um livro "de futuuuuro", que bom que você está aqui conosco. Se você quer ler um livro "de futuuuuro" onde tudo é limpo e mágico, bem, é melhor ler outra coisa, porque a história desse livro não tem nada de mágica. Ela é um misto de badtrip eterno e alerta pro mundo. E vou te falar, NADA é feliz. Mas eu estou colocando o carro na frente das hienas, vamos começar do começo.

Pra quem ficou na seca e se perdeu no deserto, Paolo Bacigalupi é um autor norte-americano que, desde 1999 está fazendo a Meryl Streep e colecionando os mais importantes prêmios da literatura de ficção científica e fantástica, com seus mais de 15 contos, 6 livros e um áudio-livro. Se continuar nesse ritmo, daqui uns 3 anos ele faz o Stephen King e vira uma máquina de expelir livros.

Ah, não precisava de mais um...
Mas, vamos ao que interessa, porque só tem esse livro do cara em solo brasileiro no momento. A história se passa num futuro não tão distante... espera, acho que vou falar de novo de outra forma. Ela se passa num futuro realista. Pronto, assim fica melhor, porque, se você prestar atenção, os futuros nas mídias costumam dar aquela exagerada nas coisas e, quando a sociedade alcança o futuro retratado e compara com o que tem agora, pensa: "É, não foi dessa vez" (sim, estou olhando pra você, 2001).

Esse futuro pode ser muito longe ou não tanto assim, mas o que importa é que a água tá acabando. Sim. E agora, o uso das águas do mundo está nas mãos daqueles que possuem direitos sobre concentrações específicas de água. Papéis, como se fosse o registro da sua casa, que te dão direito de usar a água como quiser. E, em um mundo onde a água está secando, quem tem um olho não é só caolho. A água é o produto mais importante desse mundo que está indo pro buraco (ou já chegou no fundo e ninguém ficou sabendo).

Tudo acontece naquela parte sem vida dos Estados Unidos, no Arizona, mais precisamente em Phoenix, mas de vez em quando o livro da uma passadinha em outros locais. O lugar já é puro deserto hoje, imagine então quando não tiver água pra todo mundo? E é com esse pano de fundo maravilhoso que as história de 3 personagens de desenrolam: Angel, um agente de uma das maiores donas de água dos EUA, Lucy, uma jornalista tentando ajudar um lugar a beira de um colapso e Maria, uma menina muito pobre e, como muitos outros, abandonada pelo mundo.

Tá, é bonito de olhar, mas eu não morava aí sem água meeeesmo!
Cada capítulo mostra a história através da visão de um dos protagonistas. E, por causa desse tipo de abordagem, o leitor consegue várias informações sobre como está o mundo (pelo menos as partes mais importantes) através de pensamentos e flashbacks, inseridos de forma tão orgânica que, quando você nota que era uma inserção, você já passou duas páginas dela. Por exemplo, através de um flashback que a jornalista tem para explicar uma ação sua que ela está tomando no presente, o leitor descobre que os EUA estão mal, mas no Canadá parece que nada mudou muito. Adicione a isso a informação de que a situação fica melhor quanto mais pro norte do país você vai. Informação essa que você recebe nos capítulos de Maria, na sua primeira plot, quando ela diz querer ir para os estados de cima. Indo além, você descobre que cada estado meio que se tornou um país e fechou suas fronteiras para impedir que as pessoas fiquem transitando e usando sua água sem controle. Esse tipo de informação sobre o clima político do local é mais comum nos capítulos de Angel.

Para minha surpresa, lá pelo meio do livro, as histórias começam a se cruzar e influenciar umas as outras. Tá, crossover não é nada revolucionário, mas a fluidez como ele acontece encheu meu coração de alegria. Você vai acompanhando o sofrimento individual eterno de cada personagem (sim, é tipo Jesus no filme Paixão de Cristo, chicotada o tempo todo) e, aos poucos, o sofrimento vira de todo mundo junto. Como tanto sofrimento termina? Bem, não vou dizer, mas posso te adiantar que esse é um daqueles livros que você vai demorar uns dias pra aceitar o final. Não que ele seja ruim ou totalmente inesperado (apesar de, pra mim, ter sido), mas, por não fantasiar nada, o final não te deixa com esperança de nada.

O mundo está indo pra "cucúia" e vai todo mundo junto com ele.



O BOM:
  • Futuro realista, cru e pessimista (se bem executado, é algo legal).
  • Personagens carismáticos, mesmo que não muito cativantes.
  • Mundo detalhado e sempre em movimento.
  • Melhor uso de flashbacks e pausas de consciência que já vi até hoje.
  • O cruzamento das histórias acontece de forma fluída (e invejável).
O RUIM:
  • O final pode dividir o pessoal que resolver não sentar em cima da história por uns dois dias depois de ler tudo.
  • Pra quem é facilmente afetado por materiais essencialmente pessimistas (vulgo, eu), é melhor se preparar psicologicamente para esse livro.


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