Resenha: A Caverna de Zakynthos - Ana Lúcia Merege & Eduardo Kasse

By | segunda-feira, fevereiro 06, 2017 1 comment
Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse unem suas duas séries em um grande encontro















A Caverna de Zakynthos
junta o que há de melhor dentro dos universos de Tempos de Sangue (Eduardo Kasse) e Contos da Clepsidra (Ana Lúcia Merege). Neste conto, acompanhamos a viagem pelos mares do comandante e comerciante fenício Balthazar de Tiro, junto de seu escravo grego, Lísias de Delos - que em realidade mais parece com um pajem. Ambos dão carona para Diodoros de Athena, um vampiro centenário, até as Colunas de Héracles (local mítico onde Héracles, em um de seus trabalhos, teria aberto um estreito, criando uma ligação entre o Mar Mediterrâneo e Oceano Atlântico). Diodoros abarcou na viagem com o intuito de alimentar-se tanto da carne quanto do sangue do capitão, que lhe despertara os mais diversos interesses.

Quando dois autores resolvem cruzar suas histórias, o resultado de suas ações pode ser tanto desastroso quanto maravilhoso. Acredito que haja uma esperteza clara na ideia dos escritores em dividirem as partes que cada um escreveriam por "capítulos", partes narradas pelos personagens dos seus universos mais familiares. Deve ser, afinal, no mínimo desconfortável que alguém tenha que escrever sobre um personagem e universo com o qual não seja acostumado. Ao mesmo tempo, tal separação por segmentos/pontos de vista poderia desfragmentar o ritmo da história. Porém, com as habilidades de ambos os escritores, isso, felizmente, não ocorre. 

Focando-nos agora nas escritas individuais, eu adorei a forma como Eduardo Kasse dá um tom sombrio e adulto para a narração através do personagem de Diodoros. Ele encarna o vampiro das versões imaginadas em tantos outros clássicos tais como Entrevista com o Vampiro: o monstro com uma visão crua da vida, extremamente sedutor e um pouco sarcástico. A narração de Eduardo Kasse é magistral, não sendo prolixa e nem prendendo-se a detalhes desinteressantes. A forma seca como seus personagens enxergam as coisas deixa a história toda mais adulta e gráfica, mas sem chegar ao ponto do exagero e nem do desnecessário. Tudo é equilibrado e bem colocado. 

A única coisa que me incomodou durante os capítulos narrados por Diodoros foi a sua visão dos Deuses. No começo o vampiro parece não acreditar neles e mesmo desdenhá-los e quando os outros capítulos vão surgindo, a sua opinião também parece mudar, como se ele acreditasse neles quase instantaneamente. Tal coisa não aparece de forma desenvolvida, mas sim pela escolha de palavras - que soa, desta forma, como indecisão, deixando-me confuso à respeito de sua crença ou não. 

Ana Lúcia Merege, em seus Contos da Clepsidra, já havia me chamado bastante atenção - com sua descrição simples e bastante imersiva dos tempos antigos, além da relação entre escravo e mestre que mais beira a uma amizade/quase-amantes/quer-mas-não-pode-se-envolver. Em momentos, parece haver muito afeto entre Balthazar e Lísias, mas também parece que tal afeto é o mesmo que um dono sente pelo seu querido cachorro. E, dentro da sociedade e contexto apresentados pelo universo de Merege, tal coisa soa extremamente natural e mesmo apreciamos os gestos carinhos que ambos os personagens possuem entre si. A figura bruta e teimosa de Balthazar é completada pelo jeito carinho, esperto e discreto de Lísias, que o salva de apuros diversas vezes. São como duas facetas de uma mesma moeda que complementam-se.

Além disso, a forma como Merege, com seu conhecimento em história antiga, emerge o leitor neste universo torna a leitura impossível de acabar enquanto não esgotamos todas as páginas. 

Porém, acredito que o fato de este conto ser tão curto faz com que tudo chegue ao clímax logo, e, ao chegar em tal ponto da narrativa, senti que esperava mais da cena - que poderia ser uma das melhores da história O foco do conto parece ser mostrar os personagens, o que deixou a história principal em segundo plano. 

A história é simples, não rendendo mais do que já foi dita mesmo. O roteiro segue em uma crescente, e a forma como os personagens interagem entre si, sejam nas partes escritas por Kasse, sejam nas partes escritas por Merege, dão uma complexidade e deixam o leitor maravilhado. Personagens estes, por sinal, que mostram a que vieram e encantam o leitor com suas personalidades fortes e marcantes.

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Um comentário:

  1. Obrigada pela resenha! Realmente as coisas se passam rapidinho - mas, por outro lado, ai se Lísias hesitasse naquela hora! ;) Fico feliz por você ter lido e apreciado, no geral, o nosso bordado a quatro mãos. :)

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