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A Editora Draco chega com mais uma coletânea fantástica, tendo desta vez o universo dos Magos como tema. O livro possui 12 contos de diversos autores com abordagens extremamente diferentes e únicas a respeito deste universo tão rico e popular no imaginário coletivo.
Magos, não diferente de todos os outros livros da editora, começa pela sua capa maravilhosa - que é apenas o início do trabalho gráfico extremamente profissional da Draco. A diagramação, os símbolos, tudo faz parecer com que o leitor esteja realmente diante de um tomo mágico, repleto de segredos esotéricos. Além disso, nunca posso deixar de falar da qualidade do papel que a editora utiliza: eu sou um leitor que tem mania de riscar, de riscar MUITO, os seus livros, e nada com um exemplar de tamanha qualidade para tal função.
Quando uma coletânea propõe-se a falar de magia, então, o sucesso é garantido.
Vamos, abaixo, para as resenhas individuais dos contos:






Era uma Vez no Oeste Bizarro, de Marcelo A. Galvão. 

Zane Moore é um jornalista estadunidense em meio à Grande Guerra Civil americana que, para conseguir uma grande história no jornal onde escreve, acompanha os caçadores de recompensas Janus, um homem que, como o Deus romano, possui duas faces - e uma dessas com o poder espantoso de ver o futuro; e Cornelia Legris, a Medusa Negra, que é seguida por sua reputação de bruxa, em uma aventura ao estilo Faroeste. Começo dizendo que uma história boa prende desde o início, ou seja, desde o título, a meu ver. Galvão provou-se um escritor habilidoso com a forma como a história contada em Era uma Vez no Oeste Bizarro, que, apesar de não ser cheia de reviravoltas e ganchos no roteiro em si, prende através da sua coesão narrativa: há uma linearidade na história que faz o leitor ficar curioso sobre o que ocorrerá a seguir. Carregado de descrições muito bem feitas e de uma escrita extremamente caprichosa, Era uma Vez no Oeste Bizarro mostra que para escrever-se um livro sobre Magos, não necessariamente precisa-se apelar para o sentido clássico. É possível fazer, e fazer bem, um conto sobre tal classe sem elfos, bolas de energia, bastões e ordens iniciáticas. Além do mais, a forma como o autor cita os elementos do cenário e descreve os personagens, sempre carregando um tom seco e cru - igual ao deserto onde passa-se a história, transforma todas as cenas ali contidas em algo mágico, gravitacional. Os personagens são extremamente bem apresentados, e o fato do autor não possuir grandes mudanças narratórias e manter o ponto de vista do conto relativamente fixo ajuda muito em aprofundar o conhecimento e empatia pelos mesmos. Tudo isso reforçado, e repito, pelas descrições de Galvão, que não reforçam clichês e, caso os utilize, faz um uso deles tão bom que tudo soa original. Eis um dos melhores contos da coletânea inteira.

A Elfa Maga, por Vivianne Fair.

Ferry é uma elfa de um vilarejo pequeno que tinha desde sempre o sonho de tornar-se uma maga – sonho este confrontado pelas pessoas do seu local de origem. Quando um velho mago chegou ao vilarejo e aceitou seu pedido de tornar-se sua aprendiz, ela partiu com ele em direção às aventuras que esperava encontrar.
O estilo de escrita de Vivianne Fair deixa uma leitura leve, engraçada. Existem piadas que brincam com o clichê e me tiraram bons sorrrisos. Eu me sinto decepcionado, porém, quando, na metade de um conto, já sei o seu final. Acho que o autor deve, sim, andar de mãos dadas com o leitor – mas que, em algum momento, é bom que o mesmo seja largado às cegas diante das inúmeros possibilidades que a história pode propor. E tais possibilidades existiam em A Elfa Maga – e muitas delas foram colocadas na escrita da estória, através do uso de interrogativas:aquelas perguntas no meio do texto, com o papel de servirem como gancho e prenderem a atenção do leitor. Esse tipo de gancho é ótimo, mas quando existe somente essa estratégia no meio do conto, me parece que a escritora falhou em propor as possibilidades contidas nas interrogativas por meio de cenas reais, de tais possibilidades de fato acontecendo, e não simplesmente dando-as para que o leitor as imaginasse sozinho. Além disso, não gostei muito da forma com os personagens, e principalmente a protagonistas, foram construídos. A autora coloca diversas descrições, adjetivos e fomenta eles com seus diálogos e as já citadas interrogativasmas nos conta muito mais do que mostra.

Crônicas de Libertà: Fogos de Artifício, de Eric Novello.

Acompanhamos o vigilante Ícaro Pagani – especialista em procurar traços de magia em locais de crime, e sua companheira Ágata em uma investigação um tanto estranha nas ruas do Rio de Janeiro. A busca irá levá-los a intrigas envolvendo poder, casamento, dinheiro e magia.
Este é para mim um dos melhores contos do livro, sem sombra de dúvidas. Flui naturalmente, sem enrolação e descrições chatas devido às suas naturezas longas e desnecessárias. A forma como o autor pontua as informações que formam os personagens, no meio do tempo, deixam tudo mais interessante, especialmente porque todas estas informações funcionam de gancho para o leitor – que pergunta-se sempre a importância das mesmas na história e, ávido, corre atrás, página por página. O mais interessante, porém, é a construção dada aos personagens principais através de suas interações. E aqui devo parabenizar Eric que, sendo um dos poucos autores que escolheu manter apenas um estilo narrativo, um ponto de vista, coeso e linear, conseguiu dar conta de dois personagens complexos sem falhas e sem necessitar da abordagem que acredito muito arriscada e propensa a falhas de mudar os pontos de vistas em um texto tão curto. Os personagens são cativantes e bem definidos – e tudo isso é complementado pelo senso de humor de Novello, que é maravilhoso em minha opinião. O conto ganha pontos pela sua verossimilhança: isso mesmo, mesmo sendo um conto sobre magos, ele é verossímil(especialmente nos momentos de humor, que constroem os personagens)! E isso faz uma boa literatura. Sem delongas, eu acredito que o leitor que tiver este livro em mãos deveria realmente começar a sua leitura por este conto, que é simplesmente magistral.

Kyrie Eleison, de Liège Báccaro Toledo.

Aqui vemos a agonia de Aislinn, uma moça de família cristã irlandesa, em uma época em que as memórias de Deuses e crenças antigas não foram completamente apagada, ao tentar salvar Aldred – chego em sua casa praticamente morto, coubendo-lhe a missão de tratar suas feridas.
Liège sabe descrever como ninguém. Kyrie Eleison prende o leitor através das imagens bonitas e bem feitas pela autora, que é mestra no processo criativo. Palmas para o seu conto por colocar uma circunstância história extremamente plausível e acrescentar a nossa imagem coletiva sobre o aspecto místico da Irlanda, por sinal. Os personagens são extremamente carismáticos e bem descritos, além de terem históras concisas que chegam ao ponto rapidamente. Protagonista é assim porque aconteceu isso e isso e aquilo, fim de papo. Gosto disso, mostra que a autora sabe que o leitor não quer ser enrolado. Se em outras resenhas eu reclamaria das descrições que considero clichês, como cabelos da cor da noite, olhos da cor do mar, aqui não vi problema – dado o contexto, tal tipo de discurso me parece cabível. Parte interessante é o desenvolvimento dado aos personagens sob o ponto de vista do não-pertencimento e do estranhamento religioso, o conflito interno em relação ao fato de ambos serem de uma geração já cristã; mas com indícios fortes do paganismo em sua cultura. A única coisa que achei um pouco desnecessária foi a alternância entra a primeira e a terceira pessoa no discurso: a terceira, que, a princípio, parecia ser utilizada para mostrar o ponto de vista de Aldred, logo após é ampliada para uma voz narrativa que abarca todos os personagens – coisa que achei um pouco incosistente. E sempre repito: gosto quando há uma linha narrativa, ou seja: se o narrador é geral, que seja geral no conto inteiro – se ele parte do ponto de vista de personagens, que mantenha-se fiel. Mistura demais acaba dispersando um pouco o leitor, na minha opinião. Dito isso, reforço: Liège conseguiu fazer uma história bela e com tons clássicos, que agradam bastante. O rumo da história é belo, sutil. É uma leitura que nos leva à calmaria.

O Último Desejo, de Charles Krüger

Aqui acompanhamos a história de Raian – um Tocado, uma pessoa que ganhou poderes especiais ao fazer um contrato com um Unicórnio, que lhe imcubiu um destino complexo: lutar contra os Caídos, criaturas poderosas com capacidade de destruir o mundo.
A escrita de Charles Krüger foi uma das que mais me agradou neste livro: ágil, com boas descrições, um ritmo constante e imagens que agradam o leitor. A forma como o autor nos leva aos rumos de seus personagens é prazerosa, e a sua habilidade com a escrita faz com que queiramos continuar lendo suas palavras com a fome de um leão. Igualmente, os diálogos entre os personagens constroem bem estes, como no conto de Eric Novello – dão profundidade e verossimilhança muito bem aproveitados no conto. Destaque para Inori, o unicórnio, que é um dos personagens mais bem trabalhados dentro do enredo. O conto se passa em um período de tempo extremamente curto, e o que ocorreu, em minha opinião, é que, enquanto os personagens estão bem desenvolvidos, a história em si ficou superficial, cheia de furos. Existem acontecimentos que são, na minha opinião, simplesmente inexplicáveis. São eventos convenientes demais para o conto, pedantes – mas que deixam o leitor com uma sensação de vazio. Enquanto servem para instrumento solucionário para a história, são instrumentos em minha opinião extremamente rasos, que tornam o rumo final do conto extremamente fraco – algo que me decepcionou, diante de uma escrita assim tão boa.

Um Mar de Fogo, de Erick Santos Cardoso

Alexander Galliardi é um Mestre em um vilarejo pacato que se vê de forma surpreendente diante de uma invasão em busca de um artefato mágico, trazendo reflexões sobre o uso e a importância da magia dentro de seu mundo e de sua vida.
Erick Santos já havia me agradado muito com o seu conto Kitsune, na coletânea Medieval, e, agora, revelou manter sua qualidade descritiva com Um Mar de Fogo. Neste conto, a troca persistente de pontos de vistas não foi mal explorada, pelo contrário, a pluralidade de personagens e de narrações correspondentes agregou à história, dando-lhe profundidade. Os personages são bem descritos e nenhum deles é caricato, apesar de muitos terem corrido o risco de o serem – é extremamente fácil transformar a sacerdotisa em uma persona quase não-humana, igualmente como é fácil fazer de um vilão o vilão clássico de novela das 20hs. O fato de tais imagens arquétipicas estarem presentes no conto e não caírem no senso comum revelam a maestria de Erick em sua escrita. As cenas são igualmente bem trabalhadas, dando a quantidade necessária de informação para o leitor sem que este seja bombardeado e nem que fique com carências não supridas. Estas informações, aliás, pontuais, são a coisa mais deliciosa de Um Mar de Fogo – o autor conseguiu, neste número pequeno de páginas, criar um mundo complexo que serviria facilmente como base para tantas outras histórias, dada a quantidade de elementos interessantes servidos ao leitor.

Coração de Ouro, Karen Alvarez

Zarina é uma jovem de 15 anos habitante de Brax, um país distópico que vive em um estado ditatorial onde pessoas com poderes extraordinários, causados por experimentos antigos, são caçadas pelo governo e pela população.
O conto apresenta um ritmo firme e constante, mas que é lento em seu desempenho. Existem momentos em que as coisas estão acontecendo rapidamente, mas a descrição desses momentos faz parecer com que sejam mais longos do que realmente são, dando certa pressa ao leitor. As cenas são bem descritas e o conto em si é cheio de frases marcantes - assinatura de Karen Alvares. A tonalidade jovial dá uma espécie de leveza à protagonista, mas eu não tenho certeza absoluta de que tal leveza caiba aqui: sendo um mundo extremamente cruel, eu esperava um tom mais sombrio e tenso – especialmente sabendo do histórico da autora com temáticas mais tenebrosas. Estes aspectos aparecem em determinados momentos, com cenas e frases que são praticamente gravitacionais de tão boas – chamam a atenção e tornam impossíveis ao leitor de não passar um marcador de textos por cima delas, em tentativa de memoriza-las. O roteiro é ótimo, assim como a personagem, cujo ponto de vista introduz bem o cenário onde vive. Alvarez faz de Brax um lugar onde realmente ninguém quer viver. Brax, por sinal, é um país extremamente bem construído, cheio de detalhes arrepiantes e uma história com desenvolvimento bem aprofundado; mostrando que mesmo em um conto podemos ter uma noção enorme da realidade literária proposta pela autora. O final do conto tira o fôlego do leitor, dando um gosto de quero mais.

De Carona, de Melissa de Sá.
Francine tem uma vida maravilhosa: faculdade, namorado, dinheiro, roupas da moda. Sua maravilhosa rotina é quebrada quando Carol, antiga amiga e uma caçadora de demônios, aparece em sua porta, cobrando uma dívida antiga: ela queria que Fran fosse visitar sua mãe, a bruxa mais poderosa do Brasil, se não do mundo, para pegar um livro secreto com ela.
Melissa de Sá fez deste conto uma coisa leve, divertida, e muito caprichosa. As personagens não são as mais complexas e profundas da coletânea, é verdade, mas dão para o gasto. O que compensa para a falta de profundidade nas protagonistas é a imensa habilidade da autora de fazer uma história que mais se parece como um capítulo de uma série de televisão ter um tom extremamente agradável que gruda os olhos. A voz narrativa é firme: mantém-se em uma linha de tempo contínua e crescente, sem quebras no ritmo e nem momentos de enrolação ou de cortes abruptos. Essa firmeza no ritmo, agregada ao narrador em terceira pessoa, faz da leitura do conto algo extremamente fácil e gostoso. As descrições, sejam dos cenários, dos personagens, seja das cenas de ação, dão conta do recado e chamam cada vez mais à leitura da próxima palavra, e da próxima, da próxima... É um conto que lembra que a literatura deve, acima de qualquer coisa, ser prazerosa. E De Carona é um dos contos mais prazerosos deste livro: não precisamos refletir sobre a morte, a vida, a ética da magia, etc. Vivemos uma aventura nestas páginas, e nos sentimos bem ao final.De Carona tem um humor que me agradou muito, e que faz das personagens as típicas jovens de vinte e poucos anos, porém com o bônus de serem bruxas. Uma pegada que realmente lembra várias séries e filmes e livros que exploram esse gênero, de forma divertida, bem feita, sólida e memorável.

E então eu não estava mais lá, de Cirilo S. Lemos.

Marlowe é um jovem que conhece Rei dos Sonhos, um Brizomante que havia assumido a forma da mulher mais bela do mundo, em uma viagem de ácido. A escrita de Cirilo Lemos é extremamente boa. Ele consegue transferir em palavras imagens e sensações extremamente difíceis e complexas para vários escritores. A forma como a história vai se desenrolando é agradável, forte, chama a atenção e não deixa o leitor largar o livro enquanto este não esgotar todas as palavras permitadas pelo limite de caracteres. Igualmente o enredo deste conto o transforma no grande conto desta coletânea. A qualidade das imagens mostradas, das alegorias, das frases de efeito – e a forma como absolutamente todas as palavras contidas nas páginas desta estória dão profundidade ao protagonista e fazem com que tenhamos cada vez mais conexão com ele é simplesmente genial. Tudo é bem trabalhado, caprichado. Vê-se claramente o intento do autor em escrever uma história extremamente original, a mais original de todas, que quebra as barreiras dentro do gênero – especialmente quando comparada com os outros contos da coletânea. Cirilo Lemos consegue descrever uma viagem de ácido tão bem, tão real, que quase assusta. Além disso, a história possui um enredo claramente simples, mas que toma proporções magníficas com a habilidade do escritor – fora que o final simplesmente nos deixa com um sorriso e um suspiro, que confirmam a qualidade desta obra. E então eu não estava mais lá é a definição do plot twist. Simplesmente genial.

Aço Sagrado, de Eduardo Kasse. 

O conto de abertura do livro fala a história de Ulick, um monge copista descrito como alguém fraco, sempre doente e sem nenhuma habilidade especial. Quando, porém, sua irmã é sequestrada pelo bispo Cináed Ua Rónáin, de Glendalough, ele sai em sua busca, portando uma espada que lhe confere não apenas habilidade em batalha, como também a personalidade necessária para que seja capaz de empunha-la. Eduardo Kasse possui em sua escrita uma predileção por descrições férreas - cenas duras, realísticas, que possam até mesmo desconfortar o leitor mais sensível. Palavrões e cenas quase com um tom gore imundam as páginas de sua obra. É um estilo que me agrada, especialmente quando bem feito, coisa que sem dúvida nenhuma ocorre em Kasse. Em um conto, onde, por tradição, o número de páginas e caracteres permitidos é menor, acho um risco enorme um escritor escolher por fazer pequenas fragmentações na narração - e este risco torna-se ainda maior quando o mesmo é dividido em diferentes pontos de vista e alterna as suas narrações entre primeira e terceira pessoa do singular. A quebra narrativa torna-se um ponto que enfraquece o conto: primeiro porque não temos tempo e espaço para alguma identificação com o personagem; segundo porque, em Aço Sagrado, há momentos em que há flashbacks, o que adiciona uma terceira camada narrativa que desestabiliza o ritmo de leitura. Por causa desta desestabilização narrativa, os personagens, que em muito agradam o leitor, acabam sendo apresentados sempre de forma que os enfraqueçam. A personagem da irmã de Ulick muito bem poderia ser a verdadeira protagonista, detedora do título de narradora - pois a sua figura é extremamente mais interessante, a meu ver, que seu irmão. Uma mulher forte e que usa de armas não tão convencionais para conseguir o que quer - mas que, por causa da sucessão de fatos da história, termina por ter um final um tanto quanto desgostoso. Além disso, o que me pareceu em Aço Sagrado foi uma tentativa de quebrar os clichês do gênero cavaleiro-salva-princesa; mas, a tentativa tão explícita de quebrar esses padrões fez com que a própria história virasse um clichê. Explico-me: a forma como, em alguns aspectos isolados, o enredo ia diferente do esperado, fazia com que a leitura fosse previsível, e em muitos momentos, para adivinhar o que ocorreria, bastava que eu pensasse qual era exatamente o contrário da situação "normal" para um conto do gênero e, pronto, o conto, em sua adversidade à ela, tornava-se clichê.

De Poder e Sombras, de Ana Lúcia Merege

Fedros é um aluno novo na Escola de Magia de Riverast, e, em um evento assustador, vê-se atacado por um grupo de homens estranhos e tem seu anel mágico roubado. Com colegas veteranos, entra em uma investigação do que poderia ser, na verdade, um crime mágico.
Este conto faz parte do universo da saga Castelo das Águias, que já possui uma trilogia e outros livros e contos publicados, sendo um universo extremamente complexo, profundo e rico. O personagem Fedros chama atenção pelo seu jeito de “menino do interior que sonha grande”, que torna-o extremamente carismático ao leitor. Além disso, a forma como o roteiro é conduzido tem um ritmo agradável, firme, que não confunde, não apressa e nem deixa o leitor ansioso: tudo é entregue no seu tempo justo, dando o efeito necessário.
Tal coisa não seria possível sem a capacidade de Ana Lúcia de criar situações fantásticas que prendem completamente a atenção do leitor. De Poder e Sombras é um conto ótimo, que fala sobre amizade, responsabilidade e tem aqueles elementos clássicos que circundam nosso imaginário coletivo a respeito de “magia”. A forma como os personagens interagem entre si durante a investigação, sem passarem por cima uns dos outros no jogo narrativo dá um equilíbrio muito bom: sabemos quem é quem, como cada um dos magos presentes na estória é, o que gosta e o que não gosta. O rumo do conto flui de forma natural e agradável, dando a esta história um gostinho doce de clássico da literatura, daquelas fábulas boas de serem lidas antes de dormir, para fomentarem bons sonhos.


 O Jogo dos Gêmeos, de Simone Saueressig. 

Acompanhamos a história de Taís, uma típica adolescente que possui como vício um jogo de computador chamado “As Ilhas Tempestade”, um RPG de estratégia ambientado em um mundo fantástico. Mal sabe ela, porém, que os personagens deste jogo possuem consciencia e, para eles, a sua figura é a mesma de uma divindade. O seu avatar, ou seja, o personagem com o qual a menina joga, um poderoso mago, a conjura em um momento de dificuldade, dando início ao enredo.
É interessante que, aqui, a alternância entre vozes narrativas acabou muito bem utilizada: os personagens marcantes ganham peso diante das escolhas lexicais de Simone, que consegue praticamente justificar o uso da alternância entre primeira e terceira pessoa com tal conto. A narração em terceira pessoa possui como ponto de vista Faidke, o avatar da protagonista, e é extremamente bem utilizada como instrumento narrativo – no sentido de que é uma voz que “mostra” o ocorrido, e não os conta. Contar, por sua vez, é o papel da voz-narradora da protagonista, que utiliza a primeira pessoa do singular. Tal utilização faz com que a personagem seja extremamente verossimilhante – a autora nos convence de que é realmente uma adolescente quem conta tais coisas. Há o uso de prolongamentos de palavras para dar ênfase, escolhas lexicais típicas de um tom mais informal, um tom de deboche insistente, além de digressões que – a princípio -, poderiam soar como extremamente inúteis ao texto, mas que agregam muito à persona. O que me incomodou foi o uso de parênteses – pois acredito que as parêntes sejam algo fora do texto, um corpo estranho – e acho que elas seriam bem aplicadas caso o conto fosse inteiramente em primeira pessoa, pois a sua utilização poderia-me fazer pensar em alguém que conta uma situação e, de vez em quando, sai dessa linha narrativa para dar espaço a algum comentário de tom pessoal, algum juízo de valor, alguma observação. Mas, sendo o conto alternado em dois estilos narrativos, as parênteses acrescentam um terceiro elemento, o que acredito que seja um pouco exagerado – além de que as parênteses são sempre uma quebra no fluxo narrativo. 
A caraterização dos personagens e a descrição são os os pontos fortes de O jogo dos Gêmeos, acredito. Os diálogos, além da já citada narração, dão identidade para os personagens e deixam todos bem característicos. Em poucas palavras, já conhecemos o básico de quase todo mundo: o que pensam da situação, se gostam ou não da protagonista, se são otimistas, pessimistas, etc. Tudo é bem claro, quase como se cada personagem fosse realmente um elemento de RPG – onde cada um possui uma ficha de características fixas que deixam claro quem é quem. As descrições também são muito bem feitas, não deixando o leitor perdido ou confuso – apesar de que acredito que em alguns momentos havia algumas frases longas demais que, de acordo com a voz narrativa, poderiam dar alguma espécie de quebra de ritmo.

Descubra as lembranças de Sammie em uma romance melancólico e intimista 
Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse unem suas duas séries em um grande encontro

Badtrip da secura...

      
















Quando pensamos no período medieval, sempre pensamos em fantasia. Além das guerras e confrontos comuns à era, encontramo-nos cercados de lendas, monstros, maldições, romances e muito sangue. Há quem enxergue o período medieval somente com o filtro utópico e mágico que conhecemos - assim como há quem somente o veja como um período negro, de forma crua. Em Medieval somos levados a um ponto de encontro entre o período real e todas as suas concepções mágicas. Muito parecido no aspecto da temática com outra antologia da mesma editora, a Excalibur - cuja inspiração fora os contos de Rei Arthur e suas variantes - Medieval, assim como a outra, leva-nos para conhecermos diferentes lados desse período tão fascinante.

A pluralidade, por sinal, é o que mais agrega na qualidade deste livro. É clara a capacidade de versatilidade vinda tanto dos autores, quanto por parte dos organizadores, por terem organizado uma antologia tão rica em diversidade: temos diversas facetas, narrativas e lugares envolvidos com o filtro medieval, dando ao livro uma qualidade incrível.

Falando nisso, é impossível citar a editora Draco sem citar sua maravilhosa qualidade gráfica - e devo mandar meus mais sinceros parabéns ao capista, visto que a capa é sem sombra de dúvida uma das mais bonitas que já vi. A diagramação, a qualidade do papel, tudo em Medieval soa extremamente cuidadoso e profissional. 

Resenhamos os contos desta maravilhosa antologia, em ordem de publicação, abaixo:






      Erva Daninha - Melissa de Sá. No conto de abertura acompanhamos a história de Pierre, soldado francês que está em Veneza à espera de uma chance de lutar nas Cruzadas. A Santa Missão de Pierre serve para ele se redimir diante de um pecado que julga ser o maior que cometeu. Em Veneza o soldado conhece a nobre Agnes, e logo ambos começam um romance que se revelará bastante complexo.

A história se desenrola de forma ótima, e Melissa de Sá possui uma escrita que muito me agrada - com frases memoráveis, personagens cativantes. O ponto forte da história é a narração de Pierre, que agrega um tom pessoal muito intenso: com marcas de uma espiritualidade forte e uma visão carrancuda e amargurada dos fatos que deixam a leitura mais crível, nos aproxima do personagem. Apesar de que eu realmente não gostei quando, em determinado ponto da história, esta muda de narração em primeira pessoa para terceira do singular.

Lembro-me que o conto de Melissa de Sá em Excalibur, "O Fio da Espada" havia me prendido em todas as páginas, com seu personagem principal e ritmo prazeroso. Em Erva Daninha, apesar de ser acompanhado de uma descrição muito bonita e coesa, duas coisas me incomodaram: primeiro foi o ritmo de escrita do conto. Não falo da história, mas sim da escrita - cujo o que eu acredito ser um excesso de descrição atrapalhou um pouco na leitura, tornando-a um pouco pesada. A outra coisa que não me agradou é que achei algumas partes muito previsíveis. A história é ótima, mas em alguns momentos eu previa o que aconteceria com os personagens e, decepcionado, acertava minhas previsões. Não é um conto surpreendente, e nem acredito que tenha a pretensão de o ser, mas quando comparo com o outro apresentado por Melissa de Sá na coletânea Excalibur, confesso que esperava mais.
Olhei para ela, fundo nos olhos. Naquele momento, quis ser um homem bom. Por Agnes. Quando levasse o crucifixo para Jerusalém e meus pecados fossem perdoados, eu seria. E poderíamos viver juntos.

-- Eu te amo – disse, devagar.

Ela sorriu e me deu um beijo na testa.

      O Desejo de Pungie - A. Z. Cordenonsi. O segundo conto do livro relata a história de Pungie, de família mongol, na então chamada Zhongdu (hoje Pequim). Passa-se em um período conturbado e especialmente difícil para os de sangue mongol: o preconceito assume papel imponente sobre a cidade. Pobre e faminto, em um ato de desespero para alimentar sua família, Pungie procura uma tia conhecida por ser bruxa para conseguir resolver seus problemas.

Se a escrita de Cordenonsi foi algo pesado para mim na coletânea Excalibur (é muito difícil, para mim, não comparar ambas as antologias, visto que elas possuem uma temática tão familiar), aqui ele se consagra com um dos meus escritores favoritos. A primeira coisa que me chamou atenção foi o cuidado com que o autor aplica as informações e palavras estrangeiras no conto: tudo possui uma explicação, e de forma extremamente coesa e sem ser extremamente cansativa. O ritmo da história é extremamente fluido e que torna a leitura extremamente prazerosa. As descrições são pontuais e nada prolixas, tudo parece extremamente bem encaixado no texto.

A história é igualmente agradável, e o que poderia se tornar um conto de rumo perdido e vazio, transforma-se em uma sucessão de fatos que não somente são de fácil compreensão, como também um desenrolar totalmente verossímil. O autor foi, em minha opinião, extremamente inteligente em deixar cada pano de fundo e informação simples o suficiente para que não perca o leitor e - quando em contraste com o ponto de vista de Pungie, ao nos colocamos no lugar do personagem, tudo se torna extremamente plausível. Ora, se fosse eu no período medieval, passando fome, e possuindo uma tia bruxa, não teria dúvidas em procurá-la para obter algum tipo de ajuda.

Os personagens possuem uma dureza e personalidades frias e apáticas tão fortes que se tornam muito reais quando estamos lendo suas ações, e isso agrega de forma maravilhosa ao tom da escrita de Cordenonsi e da história que os permeia. Além disso, o conto não pretende ser extremamente original a ponto de ser presunçoso e insuportável: em sua simplicidade(e aqui digo que é um conto que é simples, e não simplório - Sábio é o autor que sabe fazer da mais cotidiana das histórias algo grandioso) está a chave da sua originalidade e genialidade.

Este conto se classifica, com toda certeza, como um dos meus favoritos. Bem escrito, simples, verossímil, original, tudo o que eu gosto.

– Onde está a comida, ben dan? Ben dan era um apelido rude e mal-educado e a grosseria queimou em seus ouvidos; nos últimos tempos, Mengsu se tornara irritadiça e, ás vezes, violenta. Se fosse pela fome ou por ter se arrependido de ter casado com um waiguoren, um estrangeiro, Pungie não saberia dizer. Mas ele tinha certeza que percebia os dedos do sogro na mudança do comportamento da mulher. Acabou, minha flor de jasmim – mentiu ele – Não há mais nada. – O bebê no colo pareceu perceber o que o pai dizia, pois desatou num choro estridente que perturbou os seus ouvidos machucados pela surra. Mengsu olhou feio para o garoto, que fez um beiço enorme antes de enfiar o rosto lavado pelas lágrimas no colo da mãe. – E o que você espera, homenzinho? – disse ela, olhando para baixo – Que nos alimentemos de vento? Quer nos transformar em eguis? Em fantasmas de osso e pele? – Não, flor de jasmim. Não. Eu... eu vou dar um jeito... – disse Pungie, suplicando uma vez mais naquela noite – Eu vou arranjar comida. – Tian na! – exclamou ela, invocando a proteção contra o mal com os dedos cruzados antes de estender o braço para o filho mais velho – Venha, Yun-Shi! Nós vamos até o seu avô. – Não é necessário! – implorou – Eu vou conseguir comida. Eu só preciso de mais tempo.
Homens não trazem promessas para o jantar. – respondeu Mengsu, saindo porta a fora com os seus dois filhos e deixando Pungie abraçado à própria amargura.

      A Clareira Mágica - Roberto de Sousa Causo. Aqui temos a história de Diogo Sardo, guerreiro ferido em batalha que conhece uma mulher misteriosa e arrisca a vida para salvá-la de acusações de bruxaria. Além disso, o mesmo luta contra a imagem de ser somente o "aleijado", e busca o eterno sentimento da batalha que o acompanha, sendo este mais forte que as dores de suas cicatrizes.

Causo é um escritor que tem meu respeito. Acho sua escrita singular e prazerosa, mas não acredito que ela tenha sido bem refletida neste conto. Por ser uma história curta, sinto que não houve oportunidade ou tempo para me identificar e gostar do personagem - ele é envolvido em sua própria história, não dando espaço para o leitor se conectar com ele. Nem mesmo um parágrafo de reflexão que pudesse servir. Além disso, acredito que este ritmo acelerado pecou nas transições de cenas, que soam rápidas e inverossímeis.

A motivação do personagem é cativante. Não apenas deseja retornar para a batalha, como vive com o peso do "herói ferido em guerra" - sendo tratado com um misto entre respeito e pena pelos outros e, desta forma, limitado a receber elogios e confortos, tendo que ficar em estado de repouso recorrente, quando em realidade voltar à sua forma antiga, à sua energia de antes, seria o seu maior desejo. Tal coisa, porém, acaba sendo quase deixada de lado, pois o conto ocupa-se de outras cenas na maioria dos casos. Aqui, acredito que não faria mal para a história ser mais alongada a fim de criar um ponto de proximidade do leitor e do protagonista.

As descrições da cena de luta do conto são muito bem escritas, sendo claras e não deixando o leitor atrapalhado na descrição dos movimentos - que é algo que aprecio muito. Apesar disso, a história utiliza de jargões descritivos que parecem acompanhar toda história de fantasia ("pele alva e cabelos negros", além de comparações como algo branco como mármore, formas estatuescas, etc). Claro que este tipo de descrição é extremamente cabível à trama, que tem uma tonalidade muito parecida com os clássicos do romancismo ou mesmo um tom de trovadorismo. Mas acredito que, quando a história não é assim tão surpreendente, a escrita tenha que pelo menos torná-la mais sofisticada.


— Agora vais-me dizer que só as fadas conhecem o caminho secreto para esta clareira.

— Só as fadas e as feras — ela respondeu, a apontar uma direção.

Diogo olhou para lá e viu uma matilha de lobos a vir no rumo deles. Levou a mão direita à adaga em sua cintura e a arrancou da bainha num movimento determinado, os olhos fixos nos animais.

As mãos de Anabel tocaram o seu punho e o moveram lentamente, mas com tanta determinação quanto ele, de volta à bainha.

      Sacrifício - Eduardo Kasse. Sacrifício conta história de quatro irmãos daneses em sua rotina como bárbaros: Arvid, Ragnvald, Einarr e Ulrik. A história começa alguns dias antes de uma expedição para pilharum templo na Inglaterra. É o relato de como a voz dos deuses tinha uma importância feroz na cultura nórdica. A violência, os saques e a religião nórdica permeiam esta história, além da clássica profecia, conhecida em diversos contos fantásticos, mas aqui empregada de forma bem agradável ao leitor: clara, crua.

"Crua", por sinal, seria como eu descreveria a escrita de Eduardo Kasse. Nada surpreendente quando se trata de narração: uso de palavrões e adjetivos não-tão-finos-assim são características em diversas narrativas, mas ainda algo difícil de se ver e - principalmente - difícil de se ver bem aplicado. Tal característica é fortemente marcada nos diálogos - que não soam expositivos e nem desnecessários. Toda parte do conto parece necessária a ele, especialmente quando temos que perceber que a narrativa, e a antologia em si, parte do princípio de retratar o lado mágico e, ao mesmo tempo, real, da Idade Média. O fato de sermos presenteados com cenas que muitos considerariam "polêmicas" demais para o leitor fez com o que eu gostasse ainda mais de Sacrifício. Idade Média é sangue e sexo e um monte de nojeiras mesmo, e a forma como tais são retratadas muito me lembraram George R. R. Martin, o que é muito legal. Aqui o autor não ficou preocupado em preencher a era com romantizações, cavaleiros polidos e utopias; a preocupação é o relato, cru como realmente eram as coisas.

Outra coisa que me agradou é que o conto não enrola nos dando descrições imensas e cansativas e extremamente clichês/românticas dos cenários e situações. A Lua não sorri nem a floresta possui um cheiro que parecem algo divino. O lado mágico em O Sacrifício não é visto com um filtro de encantamento(e que fique claro que eu adoro esse tipo de descrição, desde que ele seja bem usado e não fique nos chavões clássicos): é algo natural - assim como era de fato visto esse lado pelos povos medievais. Os inimigos tem bafo e cheiro de mijo e os monstros cheiram a carne podre, simples. Sem chavões descritivos, este conto se torna extremamente agradável.

A descrição das cenas e dos personagens, a forma como o narrador/escritor os introduz para o leitor surpreende com a naturalidade, como se fôssemos parte da história, e estivéssemos ali para ouvir o contador de histórias casualmente - é maravilhosa. Sacrifício é outro conto que não possui a pretensão de ser o conto dos contos, mas, em sua simplicidade (e graças ao talento e estilo de escrita de Kasse), deixa o leitor estupefato. Só posso dizer que esse com certeza é o meu favoritíssimo.

Ragnvald avançou sobre o algoz e fez um talho no seu crânio com o machado, o som tal como o de um graveto seco sendo partido. O desgraçado morreu antes de cair. A lança de Arvid ficou presa no homem que chorava feito uma criança, o mijo formando uma poça entre as pernas trêmulas. Ele soltou sua arma e sacou uma adaga. Uns dez passos o separavam do arqueiro que já havia posto outra flecha na corda. Arvid atirou a adaga e ela se cravou na coxa do homem, que guinchou de dor, deixando a flecha cair. Einarr finalizou o serviço trespassando o pescoço suarento com a ponta da lança, que brilhou na nuca do bastardo. Os irmãos sorriam.

     Kitsune - Erick Santos Cardoso. Kitsune mostra a história do samurai/servidor público Kitsune, que, sentindo-se preso a uma vida medíocre, se suicida. Na hora de sua morte, o protagonista encontra uma raposa, que oferece que ambos troquem de corpos para que ele possa então cuidar de sua esposa, verificando-se que não faltará nada a ela em sua morte.

A premissa e a forma como a história é escrita são muito bonitas. O ponto mais forte da história é que ela é relatável, pois a mediocridade vivida pelo personagem é algo que cria sofrimentos para todos nós. Temos sempre a vontade de algo a mais, de fazer algo especial, de sermos únicos. A conformidade do personagem diante das situações que passava e então as descobertas sobre o que realmente acontecia em sua vida tornam a história de Kitsune densa e agradável. Além disso, o fato do autor saber chegar ao ponto é algo que agrada muito. Kitsune não é um conto que vai agradar os leitores pela sua extensão, mas pela densidade e capacidade de conter tanto espaço para divertimento/encantamento em tão poucas páginas. É uma história que chega aonde quer chegar de forma direta, mas sem deixar de contar com uma escrita impecável e descrições de tirar o fôlego. Curta e rica. Eis aí mais um dos meus favoritos.


Há uma aura muito, mas muito bonita nas descrições usadas pelo autor, e a narração decorre em um ritmo constante e igualmente bonito. Aqui acho importante relatar que, assim como em outros contos desta e de outras antologias, o autor também faz o uso de jogos de imagens comuns à literatura: apesar de que Erick Santos soube apropriar-se destes e deixá-los originais e de forma que apenas enriqueçam a história. Nada soa como encheção de linguiça em Kitsune - tudo para extremamente encaixado e narrado de forma coesa e lógica. Um acontecimento depois do outro, nada mais natural. O personagem principal é cativante, assim como a figura misteriosa da raposa. Acredito, porém, que o uso de termos em japonês requer explicação destes sempre, coisa que não parece ter sido muito pensada pelo autor - visto que ele possui algumas notas de rodapés, mas não em todos os casos onde estas poderiam ser aplicadas. No demais, tudo é impecável.

Escolhera encerrar a sua existência sem propósito e sem futuro antes que se iniciasse o dia seguinte, mas falhou. Quis ver o sol uma última vez. E no começo da hora do coelho ele já brilhava entre as frestas dos bambus, sua luz fatiada cortava a pele do samurai com o seu calor.

Uma raposa olhava para o homem que duvidava da sua escolha de morte. E saiu do meio dos bambus com os pelos dourados brilhando de sol.

    A Dama Negra e a Donzela de Palha - Nikelen Writer. Acompanhamos a história de Edward, um jovem pobre do interior da Inglaterra, com sonhos de viajar e conhecer a vida das grandes cidades. Um dia o mesmo acaba conhecendo uma mulher presa, aquele que chamou de Dama Negra (e a cena que descreve a reação do menino a ver, pela primeira vez, uma mulher negra, é muito legal) e, depois de ouvir a sua história, acaba sendo abençoado com o dom da magia e soltando-a. A partir dali nos juntamos a Edward até ele conhecer Deirdre, a primeira a lhe ensinar sobre a magia, e como esses dois encontros moldariam o seu futuro.

Nikelen Writer possui um estilo de escrita que me agrada: sem descrever demais, sem se perder em adjetivos e decoros desnecessários. O personagem é extremamente carismático (apesar que acredito que muito maduro para a idade que aparentava ter) e suas motivações são de fácil ligação com o leitor. Igualmente, os cenários descritos pela autora são cativantes e sem precisarem serem enrolados.

O que eu acho, porém, é que o conto talvez tenha sido um pouco direto demais. Senti a necessidade de mais cenas que envolvessem o leitor no sentido de explicarem como funcionaria o mundo descrito pela autora. Da mesma forma, acredito que o final ficou um tanto raso, como se o conto tivesse atingido o limite de caracteres permitidos e tivesse de acabar ali mesmo. Eu sei que o final foi escrito desta forma de propósito, querendo deixar o gosto de dúvida ao leitor - mas, mesmo assim, senti que a história se apressa para chegar a lugar nenhum, e sinto que um conto como este tem que dar ao leitor pelo menos uma hipótese, e não deixar para ele o papel mais importante da história: o seu desfecho.

A jovem foi até uma das paredes, tão escurecida e imersa na penumbra que mal dava para ver se havia algo ali. Edward precisou forçar a vista para perceber uma estante inclinada e bamba, de madeira velha e gasta. Imaginou que, se estivesse mais perto, poderia sentir o cheiro deixado pelos cupins. Deirdre voltou de lá com um pesado livro nas mãos e o estendeu para ele.
Tome. É um presente.

      O Grande Livro do Fogo - Ana Lúcia Merege. Somos apresentados a Mustafá e sua filha Khadija, que se admira com a ideia de um rico comerciante chamado Walid ter conseguido sua riqueza possuindo um djinn. Determinada a conseguir o Djinn para realizar o desejo de possuir muitas riquezas, ela atrai o pai até a mansão do comerciante para que consiga, então, colocar as mãos na tão sonhada lâmpada mágica. As coisas, porém, não vão como esperado e eles são transportados para o mundo dos djiins com o objetivo de conseguir o Grande Livro do Fogo, único objeto que permite o controle sobre as criaturas.

A primeira coisa que chama atenção neste conto é o roteiro: clássico, porém não clichê. É a jornada do herói bem apresentada, que prende o leitor e traz transformações aos personagens. As reviravoltas são agradáveis e o leitor se prende facilmente à narrativa de Ana Lúcia Merege. O trio de protagonistas se complementa muito bem, e nenhum deles possui mais peso na história que o outro, em geral. Cada um tem seus pontos fracos e fortes no roteiro, e desempenham bem seus papeis.

O ritmo da leitura é incessante, o que é um bom sinal: o leitor não para de ler o conto para continuar depois. Cada parágrafo pede que o próximo seja lido imediatamente, quase como se o próprio leitor estivesse acompanhando a jornada dos três personagens.

A narração, que faz bem em não focar no ponto de vista de nenhum personagem, ajuda a travessia do leitor, abarcando os pensamentos e sentimentos de todos sob o olhar deste narrador que conta a história de forma magnífica, sem apelar para longas listas de adjetivos e sem deixar ninguém com gosto de "quero mais". O conto narra o que se propõe, faz seu papel e agrada quem põe suas mãos nele.

Sem furos e sem delongas, O Grande Livro do Fogo mostra-se um dos meus favoritos da antologia.


-- Já sei que não atenderás a meus desejos, mas conta-me, ainda assim: onde está o Grande Livro do Fogo? Por que, em tanto tempo, não consegui achar nenhuma pista?
-- Porque buscaste nos lugares errados, homenzinho – disse o jinn, não sem simpatia. – Obra nenhuma, escrita por mortais, mencionaria esse livro do qual os próprios magos falam aos sussurros, apenas dos lábios do mestre para o ouvido do aprendiz. O Grande Livro do Fogo não existe neste mundo, mas no reino dos jinns, numa caverna guardada por temíveis feras do deserto.

A Flor Vermelha - Karen Alvares. Em uma China conturbada pela guerra, a filha do duque - e inimigo do imperador - Li Yuan, Pingyang, causa comoção dentro de sua família. Ela deseja aprender artes marciais, e, devido ao grande amor que seu pai tem por ela, consegue tal façanha. Os anos fazem dela uma guerreira e general, onde a jovem quebra os paradigmas da sociedade da época e vai contra as escolhas da mãe.

A história de A Flor Vermelha é muito boa. Sério, muito boa. Todo o círculo de personagens encanta em seus maneirismos e a narração torna tudo mais bonito. O conto possui os principais pontos de vistas de três personagens: a jovem, a sua mãe e seu pai, e, apesar de eu ser um pouco contra de diversos pontos de vistas quando se trata de contos (e mesmo de romances), aqui Karen Alvares soube empregá-los sem deixar os personagens confundíveis. Apesar do estilo de escrita não mudar, os pontos de vistas são extremamente claros.

Os personagens são o que mais chamam a atenção dentro da narrativa. Li Yuan faz o típico guerreiro chinês da era medieval: totalmente autoritário, respeitado e causando medo dentro dos membros da própria família devido aos códigos de ética extremamente rígidos. Isso não necessariamente o faz  feliz, visto que gostaria de ver um pouco de coragem em seu filho ao falar com ele. Isso, porém, ocorre somente com a protagonista, Pingyang, que sempre é descrita possuindo uma coragem e ousadia que chegam a ser contra os costumes da época. O jeito que o pai trata a sua filha, com favoritismo explícito, não a torna, porém, mimada, o que deixa o conto melhor.

O roteiro segue uma linha muito bem descrita, e a forma como os acontecimentos vão surgindo deixam o leitor cada vez mais ávido por mais. E, apesar da autora não ter optado pelo lado "mágico" da era medieval, a magia encontra-se dentro da coragem da guerreira, que encanta com suas atitudes. O final é surpreendente, e, sendo um pouco familiar com a escrita de Karen Alvares, confesso que não poderia esperar mesmo. Com certeza A Flor Vermelha é uma das joias deste livro.

– Tem uma moça lá na cidade, pai – disse Huan, encantado e sem fôlego. – Uma moça vermelha. Ela veio com muitos soldados, um exército deles! Ela abriu as lojas do governo, invadiu os mercados e deu de comer para todos os camponeses que tinham fome. Veja, eu peguei um monte de comida!

– Uma... uma o quê? – o pai perguntou.

– Ela é general, foi o que disseram. Usa um leque vermelho e tem os olhos em brasa. Ela parece enorme! Alta e vermelha como o sol!


Lenora dos Leões - Helena Gomes. Helena Gomes fecha este livro contando a história de Leonor, menina que, abandonada pelo seu pai e jogada aos leões, é resgatada pelo tio Pedro, rei de Castela. A história mostra uma relação abusiva repleta de violência, dependência e um tom macabro que deixa tudo mais denso.

Lenora dos Leões fecha este livro com chave de ouro. Apesar do começo do conto ser um pouco arrastado, para dar ao leitor a devida ambientação, é incrível ver como a relação entre Lenora e Pedro possui camadas extremamente fortes e complexas, que demonstram o lado mais sombrio do período medieval. Enquanto a menina sempre vira o seu sequestrador como pai, ele a usa durante boa parte do enredo como puro objeto, criando-a a par dos seus cachorros, inclusive obrigando-a a dormir no chão ao lado de sua cama. Para a menina, isso sempre fora uma espécie de carinho, visto que sua realidade sempre fora essa e não saberia diferenciar o que acontecia da sua própria percepção. Quando o tempo passa, a obsessão de Pedro por Lenora torna-a objeto de prazer sexual, enquanto tudo o que ela queria era ser tratada como a filha que se sentia.

O enredo possui reviravoltas marcantes e cenas que deixam o leitor estupefato durante toda a narrativa. A personagem de Lenora é extremamente dependente do rei de Castela, e sua visão sobre as coisas possui uma ambiguidade deliciosa ao leitor. Igualmente o personagem de Pedro chama atenção pelos maneirismos e trejeitos, além da impulsividade que o controla.


Eu quis sair detrás da tapeçaria, me aproximar, e foi então que descobri e reconheci o vulto negro e sobrenatural, protegido por seu longo manto escuro. Em pé a alguma distância de Pedro, ele me sorria daquele jeito diabólico.

Um capuz ensombrava-lhe parte do rosto, impedindo-me de analisá-lo por completo. Apesar disso, senti que era alguém estranhamente muito antigo, com milênios de existência, talvez mais. Suas mãos imensas, no entanto, pertenciam a um homem jovem. Elas estavam largadas, assim como os braços, nas laterais de seu corpo grande e ameaçador.

O vulto apenas esperava. E Pedro não conseguia enxergá-lo — como isso era possível?

O conto possui um ritmo fervoroso a partir do segundo ato, e o tom religioso que impregna algumas camadas deixa tudo mais real para o leitor. Nós nos sentimos na idade média como em nenhum outro conto.

Tudo em Lenora dos Leões soa extremamente profissional e bem feito. A escrita de Helena Gomes nos transporta e fecha o livro da melhor forma possível.

Para saber mais deste livro, acesse o site da Editora Draco.