A Editora Draco chega com mais uma coletânea fantástica, tendo desta vez o universo dos Magos como tema. O livro possui 12 contos de diversos autores com abordagens extremamente diferentes e únicas a respeito deste universo tão rico e popular no imaginário coletivo.
Magos, não diferente de todos os outros livros da editora, começa pela sua capa maravilhosa - que é apenas o início do trabalho gráfico extremamente profissional da Draco. A diagramação, os símbolos, tudo faz parecer com que o leitor esteja realmente diante de um tomo mágico, repleto de segredos esotéricos. Além disso, nunca posso deixar de falar da qualidade do papel que a editora utiliza: eu sou um leitor que tem mania de riscar, de riscar MUITO, os seus livros, e nada com um exemplar de tamanha qualidade para tal função.
Quando uma coletânea propõe-se a falar de magia, então, o sucesso é garantido.
Vamos, abaixo, para as resenhas individuais dos contos:
Era uma Vez no Oeste Bizarro, de Marcelo A. Galvão.
Zane Moore é um jornalista
estadunidense em meio à Grande Guerra Civil americana que, para conseguir uma
grande história no jornal onde escreve, acompanha os caçadores de recompensas
Janus, um homem que, como o Deus romano, possui duas faces - e uma dessas com o
poder espantoso de ver o futuro; e Cornelia Legris, a Medusa Negra, que é
seguida por sua reputação de bruxa, em uma aventura ao estilo Faroeste. Começo
dizendo que uma história boa prende desde o início, ou seja, desde o título, a
meu ver. Galvão provou-se um escritor habilidoso com a forma como a
história contada em Era uma Vez no Oeste Bizarro, que, apesar de não ser cheia
de reviravoltas e ganchos no roteiro em si, prende através da sua coesão
narrativa: há uma linearidade na história que faz o leitor ficar curioso sobre
o que ocorrerá a seguir. Carregado de descrições muito bem feitas e de uma
escrita extremamente caprichosa, Era uma Vez no Oeste Bizarro mostra que para
escrever-se um livro sobre Magos, não necessariamente precisa-se apelar para o
sentido clássico. É possível fazer, e fazer bem, um conto sobre tal classe sem
elfos, bolas de energia, bastões e ordens iniciáticas. Além do mais, a forma
como o autor cita os elementos do cenário e descreve os personagens, sempre
carregando um tom seco e cru - igual ao deserto onde passa-se a história,
transforma todas as cenas ali contidas em algo mágico, gravitacional. Os
personagens são extremamente bem apresentados, e o fato do autor não possuir
grandes mudanças narratórias e manter o ponto de vista do conto relativamente
fixo ajuda muito em aprofundar o conhecimento e empatia pelos mesmos. Tudo isso
reforçado, e repito, pelas descrições de Galvão, que não reforçam clichês e,
caso os utilize, faz um uso deles tão bom que tudo soa original. Eis um dos
melhores contos da coletânea inteira.
A Elfa Maga, por Vivianne Fair.
Ferry é uma elfa de um vilarejo pequeno
que tinha desde sempre o sonho de tornar-se uma maga – sonho este confrontado
pelas pessoas do seu local de origem. Quando um velho mago chegou ao vilarejo e
aceitou seu pedido de tornar-se sua aprendiz, ela partiu com ele em direção às
aventuras que esperava encontrar.
O estilo de escrita de Vivianne Fair
deixa uma leitura leve, engraçada. Existem piadas que brincam com o clichê e me
tiraram bons sorrrisos. Eu me sinto decepcionado, porém, quando, na metade de
um conto, já sei o seu final. Acho que o autor deve, sim, andar de mãos dadas
com o leitor – mas que, em algum momento, é bom que o mesmo seja largado às
cegas diante das inúmeros possibilidades que a história pode propor. E tais
possibilidades existiam em A Elfa Maga – e muitas delas foram
colocadas na escrita da estória, através do uso de interrogativas:aquelas
perguntas no meio do texto, com o papel de servirem como gancho e prenderem a
atenção do leitor. Esse tipo de gancho é ótimo, mas quando existe somente essa
estratégia no meio do conto, me parece que a escritora falhou em propor as
possibilidades contidas nas interrogativas por meio de cenas reais, de tais
possibilidades de fato acontecendo, e não simplesmente dando-as para que o
leitor as imaginasse sozinho. Além disso, não gostei muito da forma com os
personagens, e principalmente a protagonistas, foram construídos. A autora
coloca diversas descrições, adjetivos e fomenta eles com seus diálogos e as já
citadas interrogativasmas nos conta muito mais do que mostra.
Crônicas de Libertà: Fogos de
Artifício, de Eric Novello.
Acompanhamos o vigilante Ícaro Pagani –
especialista em procurar traços de magia em locais de crime, e sua companheira
Ágata em uma investigação um tanto estranha nas ruas do Rio de Janeiro. A busca
irá levá-los a intrigas envolvendo poder, casamento, dinheiro e magia.
Este é para mim um dos melhores contos
do livro, sem sombra de dúvidas. Flui naturalmente, sem enrolação e descrições
chatas devido às suas naturezas longas e desnecessárias. A forma como o autor
pontua as informações que formam os personagens, no meio do tempo, deixam tudo
mais interessante, especialmente porque todas estas informações funcionam de
gancho para o leitor – que pergunta-se sempre a importância das mesmas na
história e, ávido, corre atrás, página por página. O mais interessante, porém,
é a construção dada aos personagens principais através de suas interações. E
aqui devo parabenizar Eric que, sendo um dos poucos autores que escolheu manter
apenas um estilo narrativo, um ponto de vista, coeso e linear, conseguiu dar
conta de dois personagens complexos sem falhas e sem necessitar da abordagem
que acredito muito arriscada e propensa a falhas de mudar os pontos de vistas
em um texto tão curto. Os personagens são cativantes e bem definidos – e tudo
isso é complementado pelo senso de humor de Novello, que é maravilhoso em minha
opinião. O conto ganha pontos pela sua verossimilhança: isso mesmo, mesmo sendo
um conto sobre magos, ele é verossímil(especialmente nos momentos de humor, que
constroem os personagens)! E isso faz uma boa literatura. Sem delongas, eu
acredito que o leitor que tiver este livro em mãos deveria realmente começar a
sua leitura por este conto, que é simplesmente magistral.
Kyrie Eleison, de Liège Báccaro Toledo.
Aqui vemos a agonia de Aislinn, uma
moça de família cristã irlandesa, em uma época em que as memórias de Deuses e
crenças antigas não foram completamente apagada, ao tentar salvar Aldred –
chego em sua casa praticamente morto, coubendo-lhe a missão de tratar suas feridas.
Liège sabe descrever como ninguém.
Kyrie Eleison prende o leitor através das imagens bonitas e bem feitas pela
autora, que é mestra no processo criativo. Palmas para o seu conto por colocar
uma circunstância história extremamente plausível e acrescentar a nossa imagem
coletiva sobre o aspecto místico da Irlanda, por sinal. Os personagens são
extremamente carismáticos e bem descritos, além de terem históras concisas que
chegam ao ponto rapidamente. Protagonista é assim porque aconteceu isso e isso
e aquilo, fim de papo. Gosto disso, mostra que a autora sabe que o leitor não
quer ser enrolado. Se em outras resenhas eu reclamaria das descrições que
considero clichês, como cabelos da cor da noite, olhos da cor do mar, aqui não
vi problema – dado o contexto, tal tipo de discurso me parece cabível. Parte
interessante é o desenvolvimento dado aos personagens sob o ponto de vista
do não-pertencimento e do estranhamento religioso, o conflito
interno em relação ao fato de ambos serem de uma geração já cristã; mas com
indícios fortes do paganismo em sua cultura. A única coisa que achei um pouco
desnecessária foi a alternância entra a primeira e a terceira pessoa no
discurso: a terceira, que, a princípio, parecia ser utilizada para mostrar o
ponto de vista de Aldred, logo após é ampliada para uma voz narrativa que
abarca todos os personagens – coisa que achei um pouco incosistente. E sempre
repito: gosto quando há uma linha narrativa, ou seja: se o narrador é geral,
que seja geral no conto inteiro – se ele parte do ponto de vista de
personagens, que mantenha-se fiel. Mistura demais acaba dispersando um pouco o
leitor, na minha opinião. Dito isso, reforço: Liège conseguiu fazer uma
história bela e com tons clássicos, que agradam bastante. O rumo da história é
belo, sutil. É uma leitura que nos leva à calmaria.
O Último Desejo, de Charles Krüger
Aqui acompanhamos a história de Raian –
um Tocado, uma pessoa que ganhou poderes especiais ao fazer um contrato com um
Unicórnio, que lhe imcubiu um destino complexo: lutar contra os Caídos,
criaturas poderosas com capacidade de destruir o mundo.
A escrita de Charles Krüger foi uma das
que mais me agradou neste livro: ágil, com boas descrições, um ritmo constante
e imagens que agradam o leitor. A forma como o autor nos leva aos rumos de seus
personagens é prazerosa, e a sua habilidade com a escrita faz com que queiramos
continuar lendo suas palavras com a fome de um leão. Igualmente, os diálogos
entre os personagens constroem bem estes, como no conto de Eric Novello – dão
profundidade e verossimilhança muito bem aproveitados no conto. Destaque para
Inori, o unicórnio, que é um dos personagens mais bem trabalhados dentro do
enredo. O conto se passa em um período de tempo extremamente curto, e o que
ocorreu, em minha opinião, é que, enquanto os personagens estão bem
desenvolvidos, a história em si ficou superficial, cheia de furos. Existem
acontecimentos que são, na minha opinião, simplesmente inexplicáveis. São
eventos convenientes demais para o conto, pedantes – mas que deixam o leitor
com uma sensação de vazio. Enquanto servem para instrumento solucionário para a
história, são instrumentos em minha opinião extremamente rasos, que tornam o
rumo final do conto extremamente fraco – algo que me decepcionou, diante de uma
escrita assim tão boa.
Um Mar de Fogo, de Erick Santos Cardoso
Alexander Galliardi é um Mestre em um
vilarejo pacato que se vê de forma surpreendente diante de uma invasão em busca
de um artefato mágico, trazendo reflexões sobre o uso e a importância da magia
dentro de seu mundo e de sua vida.
Erick Santos já havia me agradado muito com o seu conto Kitsune, na
coletânea Medieval, e, agora, revelou manter sua qualidade descritiva com Um
Mar de Fogo. Neste conto, a troca persistente de pontos de vistas não foi
mal explorada, pelo contrário, a pluralidade de personagens e de narrações
correspondentes agregou à história, dando-lhe profundidade. Os personages são
bem descritos e nenhum deles é caricato, apesar de muitos terem corrido o risco
de o serem – é extremamente fácil transformar a sacerdotisa em uma persona
quase não-humana, igualmente como é fácil fazer de um vilão o vilão clássico de
novela das 20hs. O fato de tais imagens arquétipicas estarem presentes no conto
e não caírem no senso comum revelam a maestria de Erick em sua escrita. As
cenas são igualmente bem trabalhadas, dando a quantidade necessária de
informação para o leitor sem que este seja bombardeado e nem que fique com
carências não supridas. Estas informações, aliás, pontuais, são a coisa mais
deliciosa de Um Mar de Fogo – o autor conseguiu, neste número
pequeno de páginas, criar um mundo complexo que serviria facilmente como base
para tantas outras histórias, dada a quantidade de elementos interessantes
servidos ao leitor.
Coração de Ouro, Karen Alvarez
Zarina é uma jovem de 15 anos habitante
de Brax, um país distópico que vive em um estado ditatorial onde pessoas com
poderes extraordinários, causados por experimentos antigos, são caçadas pelo
governo e pela população.
O conto apresenta um ritmo firme e
constante, mas que é lento em seu desempenho. Existem momentos em que as coisas
estão acontecendo rapidamente, mas a descrição desses momentos faz parecer com
que sejam mais longos do que realmente são, dando certa pressa ao leitor. As
cenas são bem descritas e o conto em si é cheio de frases marcantes - assinatura
de Karen Alvares. A tonalidade jovial dá uma espécie de leveza à protagonista,
mas eu não tenho certeza absoluta de que tal leveza caiba aqui: sendo um mundo
extremamente cruel, eu esperava um tom mais sombrio e tenso – especialmente
sabendo do histórico da autora com temáticas mais tenebrosas. Estes aspectos
aparecem em determinados momentos, com cenas e frases que são praticamente
gravitacionais de tão boas – chamam a atenção e tornam impossíveis ao leitor de
não passar um marcador de textos por cima delas, em tentativa de memoriza-las.
O roteiro é ótimo, assim como a personagem, cujo ponto de vista introduz bem o
cenário onde vive. Alvarez faz de Brax um lugar onde realmente ninguém quer
viver. Brax, por sinal, é um país extremamente bem construído, cheio de
detalhes arrepiantes e uma história com desenvolvimento bem aprofundado;
mostrando que mesmo em um conto podemos ter uma noção enorme da realidade
literária proposta pela autora. O final do conto tira o fôlego do leitor, dando
um gosto de quero mais.
De Carona, de Melissa de Sá.
Francine tem uma vida maravilhosa:
faculdade, namorado, dinheiro, roupas da moda. Sua maravilhosa rotina é
quebrada quando Carol, antiga amiga e uma caçadora de demônios, aparece em sua
porta, cobrando uma dívida antiga: ela queria que Fran fosse visitar sua mãe, a
bruxa mais poderosa do Brasil, se não do mundo, para pegar um livro secreto com
ela.
Melissa de Sá fez deste conto uma coisa
leve, divertida, e muito caprichosa. As personagens não são as mais complexas e
profundas da coletânea, é verdade, mas dão para o gasto. O que compensa para a
falta de profundidade nas protagonistas é a imensa habilidade da autora de
fazer uma história que mais se parece como um capítulo de uma série de
televisão ter um tom extremamente agradável que gruda os olhos. A voz narrativa
é firme: mantém-se em uma linha de tempo contínua e crescente, sem quebras no
ritmo e nem momentos de enrolação ou de cortes abruptos. Essa firmeza no ritmo,
agregada ao narrador em terceira pessoa, faz da leitura do conto algo
extremamente fácil e gostoso. As descrições, sejam dos cenários, dos
personagens, seja das cenas de ação, dão conta do recado e chamam cada vez mais
à leitura da próxima palavra, e da próxima, da próxima... É um conto que lembra
que a literatura deve, acima de qualquer coisa, ser prazerosa. E De Carona é um
dos contos mais prazerosos deste livro: não precisamos refletir sobre a morte,
a vida, a ética da magia, etc. Vivemos uma aventura nestas páginas, e nos
sentimos bem ao final.De Carona tem um humor que me agradou muito, e que faz
das personagens as típicas jovens de vinte e poucos anos, porém com o bônus de
serem bruxas. Uma pegada que realmente lembra várias séries e filmes e livros
que exploram esse gênero, de forma divertida, bem feita, sólida e memorável.
E então eu não estava mais lá, de
Cirilo S. Lemos.
Marlowe é um jovem que conhece Rei dos
Sonhos, um Brizomante que havia assumido a forma da mulher mais bela do mundo,
em uma viagem de ácido. A escrita de Cirilo Lemos é extremamente boa. Ele
consegue transferir em palavras imagens e sensações extremamente difíceis e
complexas para vários escritores. A forma como a história vai se desenrolando é
agradável, forte, chama a atenção e não deixa o leitor largar o livro enquanto
este não esgotar todas as palavras permitadas pelo limite de caracteres.
Igualmente o enredo deste conto o transforma no grande conto desta coletânea. A
qualidade das imagens mostradas, das alegorias, das frases de efeito – e a
forma como absolutamente todas as palavras contidas nas páginas desta estória
dão profundidade ao protagonista e fazem com que tenhamos cada vez mais conexão
com ele é simplesmente genial. Tudo é bem trabalhado, caprichado. Vê-se
claramente o intento do autor em escrever uma história extremamente original, a
mais original de todas, que quebra as barreiras dentro do gênero –
especialmente quando comparada com os outros contos da coletânea. Cirilo Lemos
consegue descrever uma viagem de ácido tão bem, tão real, que
quase assusta. Além disso, a história possui um enredo claramente simples, mas
que toma proporções magníficas com a habilidade do escritor – fora que o final
simplesmente nos deixa com um sorriso e um suspiro, que confirmam a qualidade
desta obra. E então eu não estava mais lá é a definição do plot twist.
Simplesmente genial.
Aço Sagrado, de Eduardo Kasse.
O conto de abertura do livro fala a
história de Ulick, um monge copista descrito como alguém fraco, sempre
doente e sem nenhuma habilidade especial. Quando, porém, sua irmã é sequestrada
pelo bispo Cináed Ua Rónáin, de Glendalough, ele sai em sua busca, portando uma
espada que lhe confere não apenas habilidade em batalha, como também a
personalidade necessária para que seja capaz de empunha-la. Eduardo Kasse
possui em sua escrita uma predileção por descrições férreas - cenas duras,
realísticas, que possam até mesmo desconfortar o leitor mais sensível.
Palavrões e cenas quase com um tom gore imundam as páginas de
sua obra. É um estilo que me agrada, especialmente quando bem feito, coisa que
sem dúvida nenhuma ocorre em Kasse. Em um conto, onde, por tradição, o número
de páginas e caracteres permitidos é menor, acho um risco enorme um escritor
escolher por fazer pequenas fragmentações na narração - e este risco torna-se
ainda maior quando o mesmo é dividido em diferentes pontos de vista e alterna
as suas narrações entre primeira e terceira pessoa do singular. A quebra
narrativa torna-se um ponto que enfraquece o conto: primeiro porque não temos
tempo e espaço para alguma identificação com o personagem; segundo porque, em
Aço Sagrado, há momentos em que há flashbacks, o que adiciona uma terceira
camada narrativa que desestabiliza o ritmo de leitura. Por causa desta
desestabilização narrativa, os personagens, que em muito agradam o leitor,
acabam sendo apresentados sempre de forma que os enfraqueçam. A personagem da
irmã de Ulick muito bem poderia ser a verdadeira protagonista, detedora do
título de narradora - pois a sua figura é extremamente mais interessante, a meu
ver, que seu irmão. Uma mulher forte e que usa de armas não tão convencionais
para conseguir o que quer - mas que, por causa da sucessão de fatos da
história, termina por ter um final um tanto quanto desgostoso. Além disso, o
que me pareceu em Aço Sagrado foi uma tentativa de quebrar os clichês do gênero
cavaleiro-salva-princesa; mas, a tentativa tão explícita de quebrar esses
padrões fez com que a própria história virasse um clichê. Explico-me: a forma como,
em alguns aspectos isolados, o enredo ia diferente do esperado, fazia com que a
leitura fosse previsível, e em muitos momentos, para adivinhar o que ocorreria,
bastava que eu pensasse qual era exatamente o contrário da situação
"normal" para um conto do gênero e, pronto, o conto, em sua
adversidade à ela, tornava-se clichê.
De Poder e Sombras, de Ana Lúcia Merege
Fedros é um aluno novo na Escola de Magia de Riverast, e, em um evento assustador, vê-se atacado por um grupo de homens estranhos e tem seu anel mágico roubado. Com colegas veteranos, entra em uma investigação do que poderia ser, na verdade, um crime mágico.
Este conto faz parte do universo da saga Castelo das Águias, que já possui uma trilogia e outros livros e contos publicados, sendo um universo extremamente complexo, profundo e rico. O personagem Fedros chama atenção pelo seu jeito de “menino do interior que sonha grande”, que torna-o extremamente carismático ao leitor. Além disso, a forma como o roteiro é conduzido tem um ritmo agradável, firme, que não confunde, não apressa e nem deixa o leitor ansioso: tudo é entregue no seu tempo justo, dando o efeito necessário.
Tal coisa não seria possível sem a capacidade de Ana Lúcia de criar situações fantásticas que prendem completamente a atenção do leitor. De Poder e Sombras é um conto ótimo, que fala sobre amizade, responsabilidade e tem aqueles elementos clássicos que circundam nosso imaginário coletivo a respeito de “magia”. A forma como os personagens interagem entre si durante a investigação, sem passarem por cima uns dos outros no jogo narrativo dá um equilíbrio muito bom: sabemos quem é quem, como cada um dos magos presentes na estória é, o que gosta e o que não gosta. O rumo do conto flui de forma natural e agradável, dando a esta história um gostinho doce de clássico da literatura, daquelas fábulas boas de serem lidas antes de dormir, para fomentarem bons sonhos.
O Jogo dos Gêmeos, de Simone Saueressig.
Acompanhamos a história de Taís, uma típica adolescente que possui como vício um jogo de computador chamado “As Ilhas Tempestade”, um RPG de estratégia ambientado em um mundo fantástico. Mal sabe ela, porém, que os personagens deste jogo possuem consciencia e, para eles, a sua figura é a mesma de uma divindade. O seu avatar, ou seja, o personagem com o qual a menina joga, um poderoso mago, a conjura em um momento de dificuldade, dando início ao enredo.
É interessante que, aqui, a alternância entre vozes narrativas acabou muito bem utilizada: os personagens marcantes ganham peso diante das escolhas lexicais de Simone, que consegue praticamente justificar o uso da alternância entre primeira e terceira pessoa com tal conto. A narração em terceira pessoa possui como ponto de vista Faidke, o avatar da protagonista, e é extremamente bem utilizada como instrumento narrativo – no sentido de que é uma voz que “mostra” o ocorrido, e não os conta. Contar, por sua vez, é o papel da voz-narradora da protagonista, que utiliza a primeira pessoa do singular. Tal utilização faz com que a personagem seja extremamente verossimilhante – a autora nos convence de que é realmente uma adolescente quem conta tais coisas. Há o uso de prolongamentos de palavras para dar ênfase, escolhas lexicais típicas de um tom mais informal, um tom de deboche insistente, além de digressões que – a princípio -, poderiam soar como extremamente inúteis ao texto, mas que agregam muito à persona. O que me incomodou foi o uso de parênteses – pois acredito que as parêntes sejam algo fora do texto, um corpo estranho – e acho que elas seriam bem aplicadas caso o conto fosse inteiramente em primeira pessoa, pois a sua utilização poderia-me fazer pensar em alguém que conta uma situação e, de vez em quando, sai dessa linha narrativa para dar espaço a algum comentário de tom pessoal, algum juízo de valor, alguma observação. Mas, sendo o conto alternado em dois estilos narrativos, as parênteses acrescentam um terceiro elemento, o que acredito que seja um pouco exagerado – além de que as parênteses são sempre uma quebra no fluxo narrativo.
A caraterização dos personagens e a descrição são os os pontos fortes de O jogo dos Gêmeos, acredito. Os diálogos, além da já citada narração, dão identidade para os personagens e deixam todos bem característicos. Em poucas palavras, já conhecemos o básico de quase todo mundo: o que pensam da situação, se gostam ou não da protagonista, se são otimistas, pessimistas, etc. Tudo é bem claro, quase como se cada personagem fosse realmente um elemento de RPG – onde cada um possui uma ficha de características fixas que deixam claro quem é quem. As descrições também são muito bem feitas, não deixando o leitor perdido ou confuso – apesar de que acredito que em alguns momentos havia algumas frases longas demais que, de acordo com a voz narrativa, poderiam dar alguma espécie de quebra de ritmo.






















